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Expresso

Os táxis para mulheres são uma afronta à nossa liberdade

Depois de Brasil, EUA e Reino Unido, chegam a Paris os táxis só para mulheres. Supostamente, para o nosso próprio bem, já que evitam potenciais situações de assédio neste transporte. Mas será a segregação feminina uma real solução de segurança? Ou estamos a perpetuar um crime, responsabilizando as mulheres pela manutenção da sua integridade ao fazerem algo tão simples quanto deslocarem-se na cidade?

Eu sei que isto é uma pescadinha de rabo na boca: se as mulheres não se sentem seguras quando andam de transportes, principalmente sozinhas, querem soluções que as protejam. E andar de táxi pode ser desconfortável (quem nunca pensou duas vezes antes de se enfiar num táxi conduzido por um homem, sozinha, à noite?). Sim, o perigo, tal como a enraizadíssima sensação de que ele pode acontecer, são reais. E habituarmo-nos a viver assim, reféns do receio de que algo poderá ou não acontecer, não é solução, percebo. No limite, aceitam-se condições como estas em jeito de cuidado paliativo, criadas até com a melhor das intenções. Mas é importante percebermos que estas nunca serão uma cura a longo prazo para o problema.

Segregar as mulheres, que voluntariamente o fazem numa perspetiva de proteção imediata, é apenas perpetuar os mecanismos misóginos de fundo que nos continuam a trazer a este cenário de insegurança para o sexo feminino. É sedimentar toda a ideia de que afinal são as mulheres que têm de arranjar alternativas que as protejam destes perigos, em vez de punirmos estes perigos proativamente, como ações intoleráveis, que devem ser repudiadas e banidas da nossa vida em sociedade. Basicamente, é colocar-nos a todos no patamar de termos de viver com isso como uma constatação. E ao tornar isto numa constatação, desvalorizamos a sua gravidade. Não é difícil percebermos também o cariz de impunidade que estamos implicitamente a passar a quem se sente no direito de molestar.

Claro que podemos até considerar que apanhar um táxi exclusivamente para mulheres é uma solução prática e indolor. Tal como é indolor usar um casaco comprido que nos proteja de olhares indiscretos quando saímos à noite com uma mini-saia. Ou como é indolor acelerar o passo e ignorar quando somos interpeladas na rua com comentários lascivos sobre os nossos corpos. A questão é que quantas mais exceções supostamente indolores aceitarmos instalar na nossa vida, menos livre ela é. E quando dermos conta, vivemos novamente numa gaiola, para o nosso próprio bem. Qualquer dia voltamos a uma Europa onde as mulheres não podem andar sozinhas na rua. Onde mulheres e homens – colocados todos no mesmo saco como potenciais agressores, o que é altamente redutor e ofensivo - não se misturam para além da esfera doméstica, pelo bem maior que é a segurança feminina. Têm a certeza que é isso que querem a longo prazo?

Não é evolução, é retrocesso

Vamos lá pegar o verdadeiro touro pelos cornos: a segregação é uma afronta à conquista do direito feminino de permanência e usufruto do espaço público. Uma ameaça à nossa independência e à nossa liberdade de movimento e de expressão, coisas que nos custaram tanto a ter não só perante a lei, como também a moldar internamente na nossa matriz socio-cultural. Por mais que raramente se faça o exercício de se olhar para trás, paremos para refletir no quão recente é a existência destes direitos plenos. E na quantidade de países do nosso mundo onde em pleno 2018 isto ainda não acontece, obrigando as mulheres a viverem numa redoma.

Estes táxis, tal como os comboios com carruagens só para mulheres, alimentam o conservadorismo (que ao contrário do que muitos pensam, infelizmente está vivo, de boa saúde e em crescimento veloz) e diminuem a dignidade e o respeito a que temos direito por lei enquanto cidadãs de sociedades que se baseiam nos princípios da igualdade. Mais uma vez, não só se encara o sexo feminino com condescendência, como se lhe atribui responsabilidade e culpabilidade extras quanto à manutenção e garantia da sua integridade física e moral ao fazer algo tão simples como circular na rua. Isto não é evolução, é retrocesso.

A segregação pode até originar uma reconfortante sensação de segurança quando isto de se circular nos traz dissabores e desconforto constante, é certo. Mas essa suposta segurança não é mais do que uma falsa sensação. O perigo, esse vai continuar lá para quem se puser a jeito (é o que acabarão por nos dizer, e nós por acreditar). Ou seja, as pessoas que mais uma vez saem punidas neste processo que tentam romancear como uma solução prática são precisamente os alvos e vítimas do que está errado, obrigadas a recorrer a alternativas. O ciclo do medo e da impunidade apenas se perpetua, não sejam ingénuos/as.