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Expresso

Que isto não nos deixe indiferentes

Homicídios por esfaqueamento, asfixia, estrangulamento, espancamento, tiro e fogo. Já o próprio lar continua a ser o lugar que mais perigo oferece às mulheres portuguesas. Recentemente, a UMAR revelou que no primeiro semestre deste ano tinham sido assassinadas 17 mulheres em Portugal. Mulheres invariavelmente executadas por pessoas com quem mantinham relações familiares, afetivas ou de intimidade. O número é alto, mas esta lista continua a crescer.

Os números do Observatório das Mulheres Assassinadas (da UMAR) referente ao primeiro semestre já eram alarmantes, uma vez que ultrapassavam os dos períodos homólogos de anos anteriores. Mas a lista de mulheres assassinadas em 2018 continua a aumentar, estimando-se que já tenha atingido as 21 vítimas de femicídio. Esta semana, noticiava o “Correio da Manhã” que mais uma mulher que fugia de uma situação de violência doméstica foi encontrada morta, num barracão lisboeta onde dormia provisoriamente para se proteger do marido e agressor. Chamava-se Cristina e tinha 45 anos. São importantes os números, mas é também preciso darmos nomes e humanizarmos para além das estatísticas estas vidas que se perdem. Citando as sábias palavras da UMAR, mulheres “coartadas nas suas opções, ameaçadas, perseguidas, humilhadas, às quais foi negado o direito à liberdade, à segurança, à proteção, à autodeterminação e, por fim, à própria vida.”

Por cá, a violência doméstica é um crime público, tem dimensões preocupantes (está entre os crimes mais praticados no nosso país), mas continua a ser amplamente desvalorizada nas mais diversas esferas, desde a segurança à educação ou à justiça, mas também pela sociedade civil em geral. Continuamos a abordar este tema sob a perspetiva do velho ditado “entre marido e mulher não se mete a colher”, quando na realidade todos nós podemos e devemos ser intervenientes ativos no processo de travar situações abusivas que, como mostram estes números, continuam a ser levadas tantas vezes ao extremo, culminando em violência letal. Podemos dizer que foram apenas 21 mortes até agora. Eu prefiro considerar que se fosse apenas uma, já seria demais.

70% dos jovens achavam normais comportamentos abusivos

Não me canso de repetir por aqui: ao contrário do que muitos ainda equacionam, este não é um problema exclusivo a realidades pautadas pelas dificuldades económicas, pelas dependências ou pela pouca escolaridade. A violência doméstica é um problema transversal às diferentes zonas do país, extratos sociais, graus de formação académica, etnias e idades. Até no namoro adolescente temos visto números assustadores relacionados com violência. Outro estudo da UMAR, publicado no Dia São Valentim, revelava que de quase 5000 jovens inquiridos, 70% achavam normais comportamentos abusivos nas relações de intimidade.

Diz-nos a Organização Mundial da Saúde que uma em cada três mulheres é vítima de agressões físicas, psicológicas e sexuais uma vez na vida, pelo simples facto de ser mulher. Atos abusivos em situação de violência doméstica são os mais comuns. Nunca é demais reforçar isto: crimes perpetrados maioritariamente por pessoas – quase sempre homens – com quem as mulheres mantêm relações de intimidade. Dentro da própria casa, o sítio que deveria ser um porto de abrigo, o local mais seguro de todos. Mas que para milhares de mulheres é o inferno na terra.

Há uma frase do duríssimo livro “Em Nome da Filha”, de Carla Maia de Almeida, que me vem à cabeça sempre que penso nisto: “A violência doméstica sempre existiu. Escondida entre quatro paredes, abafada pelo peso moral da família e da Igreja, protegida dos olhares por sentimentos dúbios de honra e vergonha. Não é fácil admitir que os mais íntimos se transformam em carrascos. Quando a casa não é um lugar seguro as relações afetivas potenciam o lado negro do ser humano. Não é fácil descobrir que há monstros debaixo da cama. Acordam ao nosso lado todos os dias. Famintos de qualquer coisa que é sempre o contrário do amor”. É por isso que o cenário de fragilidade enfrentado por todas estas pessoas, violentadas na sua intimidade, e tantas vezes descredibilizadas no seu desespero, tem de ser levado a sério, e com caráter de urgência. E as causas misóginas que nos trazem invariavelmente a esta bola de neve de coação, ameaça, manipulação, agressão e demais formas de constante abuso de poder sobre o sexo feminino – que é disso que trata – não podem ser menosprezadas. Dizem respeito a todos nós.