Siga-nos

Perfil

Expresso

Marrocos: Khadija foi raptada, violada, torturada. E quer justiça

d.r.

O caso chegou finalmente a tribunal: Khadija, 17 anos, foi sequestrada, vendida a troco de drogas e álcool e mantida num armazém durante dois meses por um grupo de 12 rapazes que a violavam à vez. Constantemente drogada, foi agredida das mais variadas formas, queimada com cigarros e tatuada com frases e desenhos indecentes um pouco por todo o corpo, incluindo suásticas. Tal como em muitos outros casos, a vergonha social levou a que a família pedisse que a jovem não apresentasse queixa na polícia depois de ser libertada, mas Khadija quer justiça. E agora está a enfrentar as consequências de quebrar o silêncio.

As opiniões dividem-se em Marrocos: se por uma lado mais de 100 mil pessoas assinaram uma petição que exigia apoio psicológico à adolescente, com a intervenção do rei neste caso e ações concretas quanto ao fim da cultura da violência sobre o sexo feminino no país, por outro há todo um rol de gente que tenta descredibilizar Khadija, insinuando que Khadija na realidade teve sexo consentido com todos eles, que as tatuagens teriam sido feitas pela própria e que esta terá ido ter com os agressores por livre e espontânea vontade. A eterna culpabilização da vítima enquanto manobra de desfoque para o cerne da questão.

A família da jovem também tem sido alvo de pressão constante e escusado será dizer que a onda de repulsa de que são agora alvo dentro da comunidade onde vivem cresce rapidamente (os envolvidos são maioritariamente vizinhos), tudo porque o melhor que havia a fazer era ignorar o sucedido e cada um seguir a sua vida já que a moça sobreviveu. Como se ouvia na semana passada à porta do tribunal, “ela está a destruir a vida dos rapazes”. Que a vida dela tenha ficado destruída não interessa para nada.

Violações partilhadas no Youtube

A primeira audiência em tribunal foi na semana passada, e o que realmente aconteceu será conhecido em breve, espera-se. Contudo, a ferida relacionada com os tremendos abusos que meninas e mulheres daquele país continuam a enfrentar diariamente, em pleno 2018, está cada vez mais aberta. E a consciência de que homens e mulheres não têm o mesmo tratamento enquanto cidadãos vai-se tornando cada vez mais impossível de ignorar. Aliás, basta olhar para alguns casos recentes que chocaram o país e que graças à sua mediatização a discussão pública têm vindo a ganhar terreno.

Em março deste ano, um homem filmou um amigo a tentar violar uma menor em Marraquexe e partilhou as imagens no Youtube, ambos visivelmente orgulhosos do seu feito. Já em 2017 outro caso semelhante tinha chocado o país, quando um grupo de rapazes menores agrediu sexualmente uma mulher com deficiência mental num autocarro de Casablanca. Mais uma vez o ato foi filmado e divulgado na web, igualmente com orgulho e um total sentimento de impunidade. Basicamente, aqueles jovens homens sentiam-se no direito de o fazer e de exibir as imagens como troféu. Semanas antes, também tinham chegado ao Youtube as imagens de um grupo de homens que se divertia a perseguir uma rapariga em pânico na ruas de Tanger.

Se quisermos olhar para gráficos que traduzam em números esta cultura de desrespeito e de violência sobre o sexo feminino, basta pensar que nos últimos dois anos o número de casos de violência sexual sobre mulheres duplicou nos tribunais marroquinos. Em 2017, foram mais de 1500. Se por um lado há cada vez mais consciência para a necessidade de travar tais abusos e de exigir justiça – com as redes sociais a servirem mais uma vez de impulsionador de movimentos conjuntos - por outro, continua a imperar o dilema das consequências da vergonha social e do repúdio da comunidade, ao mesmo tempo que se vive uma indesmentível crise de redefinição do papel do homem na sociedade entre as gerações mais jovens. A repressão e a violência surgem amiúde como formas de neutralizar a alteração daquilo que muitos ainda consideram ser tradições culturais, e não violações de direitos humanos básicos.

“Khadija podia ser eu, podias ser tu, podia ser qualquer mulher”

Dados da UN Women focados na violência sobre o sexo feminino mostram que mais de 60% das mulheres marroquinas já foram vítimas de alguma ato de violência física, psicológica ou sexual. Neste último ponto, praticamente uma em cada 5 revela já ter sido abusada sexualmente. Cerca de 40% dos homens e de 38% das mulheres acreditam que se o marido sustenta financeiramente a família a mulher está obrigada a ter relações sexuais com ele sempre que este assim queira. E dados revelados no início deste ano mostravam também que mais de 60% dos homens marroquinos considera que a violência sexual pode ser legitimada em situações em que a mulher veste roupa mais provocante, sai à noite ou anda sozinha na rua. Basicamente, nestas situações está a pedi-las. É o que se diz de Khadija, por exemplo, num escrutínio abjeto sobre todos os atos da rapariga que possam justificar aquele crime conjunto.

Um dos grandes problemas continua a ser isto: em vez de se debaterem e combaterem as razões estruturais que levam a que tantos homens se sintam na legitimidade de violentar mulheres, continua-se a tentar perceber o que é que as vítimas terão feito ou dito para provocar tal comportamento no atacante. Enquanto assim for, pouco ou nada irá mudar. É urgente que seja aplicada a adiada lei 103-13, com enfoque nos crimes relacionados com a violência de género, por exemplo. Nem que seja como um passo oficial para se assumir que este é um problema grave no país. “Khadija podia ser eu, podias ser tu, podia ser qualquer mulher”, vai-se lendo nas redes sociais. E a verdade ainda é mesmo essa.