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Expresso

Este verão “a intolerância não é tolerada”, dizem elas

Crédito: Pool Rules - Chromat

Imaginemos que ao chegarmos a uma praia ou piscina pública as regras de admissão eram estas: 1, a intolerância não será tolerada; 2, 'food-shaming' não é permitido; 3, não há restrições de idade; 4, cicatrizes e estrias bem-vindas; 5, todos os pelos corporais apreciados. Estas são apenas cinco das dez regras que uma campanha de biquínis e fatos de banho acaba de lançar, e que metaforicamente promete ajudar a desconstruir estereótipos e celebrar a aceitação de todos os corpos neste verão. Ou será que o mito do corpo prefeito de biquíni deve ser levado a sério?

Crédito: Pool Rules - Chromat

Lanço-vos o desafio: quantas mulheres vocês conhecem que digam à boca cheia ”eu adoro ver o meu corpo em biquíni”? Acredito que poucas. Eu, por exemplo, conheço uma mulher que não vai à praia há anos porque tem vergonha das varizes que tem nas pernas. Conheço outra que raramente tira o pareo da cintura porque acha que tem o rabo grande e teme o julgamento da sua celulite. Conheço outra que desde que teve filhos esconde a barriga com um fato de banho enorme que odeia, mas que usa porque não se sente confortável com o volume e a cicatriz da cesariana. Conheço outra que tem vergonha do tamanho do peito e que passa a vida em busca de biquínis com parte de cima super almofadada, por mais desconfortáveis que sejam quando está encharcada em água. Fora do contexto praia e verão, nunca ninguém diria que estas mulheres teriam tamanhos receios, garanto-vos. Aparentemente são confiantes, emancipadas, livres nas suas escolhas. Mas quando chega a hora de exporem o que regra geral a roupa esconde, há um universo de inseguranças que podem ganhar dimensões enormes. E limitar, ou até mesmo inibir, a forma como desfrutam daquilo que deveria ser um simples momento de descontração.

Não conto isto aqui só porque tenho gosto pessoal em expor ao mundo as fragilidades de algumas das mulheres que me rodeiam. Faço-o porque o que elas fazem, sentem e temem é muitas vezes o que tantas outras miúdas e mulheres fazem, sentem e temem. A autoimagem e a aceitação dos seus corpos continua a ser um problema para muitas mulheres que, por mais inteligentes e independentes que sejam, continuam a ser altamente condicionadas por estereótipos de beleza que vão ao encontro da tal ideia do corpo perfeito. Ideia que tem por base a existência de corpos imperfeitos, claro. Corpos esses que são os de mais de 95% da população. Não me vou alongar muito porque nos últimos tempos já falei bastante sobre isto por aqui, mas uma coisa é certa: se no inverno a imagem corporal pode gerar angústias a boa parte do mundo feminino, no verão tudo isto tende a duplicar. E isto acontece porque somos simplesmente uma cambada de tontinhas? Ou será que o mundo que nos rodeia tem contribuído – e muito – para que esta construção nefasta da aparência física seja tão forte?

Em vésperas da habitual pausa anual d’A Vida de Saltos Altos, achei que valia a pena voltar a tocar neste tema, dando palco a esta belíssima campanha da Chromat intitulada “As Regras da Piscina”. Um fato de banho decotado é uma roupa apropriada para uma mulher de sessenta anos? E um biquíni ,será uma escolha apropriada para uma mulher com mais de 80 quilos? E uma mulher sem uma perna ou com cicatrizes de uma dupla mastectomia, deve esconder o seu corpo ou será que também tem direito a sentir-se sexy num fato de banho? Sob o mote “A intolerância não é tolerada”, esta campanha da nova linha de biquínis de fatos de banho da marca norte-americana é um bálsamo no que toca à diversidade. Com muita pinta e sem lamechices.

De há uns tempos para cá, têm sido muitas as marcas que decidem apostar na diversidade como estratégia de marketing. E ainda bem que assim é, por mais que isto possa soar mal. A mensagem que se passa às massas é boa, tal como o impacto global que isto pode ter em termos de mudança de mentalidades, independentemente do objetivo financeiro que possa ter por trás. Quantas mais marcas e campanhas nos ajudarem a trilhar caminho na direção da democratização e normalização das diferenças que ainda tanto nos espartilham, melhor. Contudo, é importante termos em mente que um dos desafios a curto prazo passa por não deixarmos que isto seja apenas uma moda passageira. E não cairmos no erro de pensar na diversidade estritamente como uma estratégia lucrativa, alinhada com as lutas do momento.

Crédito: Pool Rules - Chromat

É necessário que o paradigma realmente mude, e que aquilo que é hoje uma simples manobra de marketing (porque ainda assim é, não sejamos ingénuos) amanhã possa ser apenas parte da norma. Mas será que os ‘velhos do Restelo’ vão deixar? A verdade é que há muita gente que tem a perder, se isto abrir caminho a uma mudança estrutural. Basta fazermos o seguinte exercício: se um dia as mulheres acordassem a gostar dos seus corpos tal qual como eles são, quantas empresas abriam falência? Quantas indústrias levavam um valente abanão? Da cosmética à moda, da saúde estética à alimentação ou à farmacêutica, há todo um mundo de aproveitamento claro desta exploração das fragilidades femininas quanto aos seus corpos. E de uma forma tantas vezes condescendente, vão-nos vendendo soluções milagrosas para os problemas que nos criam deliberadamente, como se fossem os nosso melhores amigos. Espero que no futuro tenhamos ferramentas para conseguirmos questionar mais este tipo de manipulação.

Mas o caminho é longo, portanto o melhor é seguirem estas regras da Chromat e aproveitarem este verão com tudo o que têm. Com estrias, celulite e refegos, A Vida de Saltos Altos vai vestir o biquíni a partir de amanhã e dar um mergulho. Com a promessa de voltar em setembro com as ideias refrescadas. Até lá!