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Expresso

Volta a França: as mulheres ciclistas não querem migalhas, querem igualdade

Justin Setterfield

Até domingo, o mundo do ciclismo tem os olhos postos na Volta a França. Mas quem olhar bem vai perceber que não há mulheres na prova. Doze ciclistas do sexo feminino têm estado a percorrer exatamente os mesmos percursos de cada etapa, um dia antes dos atletas masculinos. Porquê? Para mostrarem ao mundo que elas também são atletas válidas. E que as mulheres merecem uma prova do gabarito e com a visibilidade do Tour de France nas suas carreiras.

Não é segredo para ninguém que historicamente existe um preconceito sobre as aptidões físicas das mulheres para o desporto, como se a resistência, destreza, concentração e força fossem capacidades masculinas. Elas são amiúde consideradas seres frágeis e delicados, com fracas força muscular e agilidade (seguindo esta linha de raciocínio, mulheres como Serena Williams, Marta Vieira da Silva, Yelena Gadzhievna, Rosa Mota ou Telma Monteiro estão provavelmente ao nível de aberrações da natureza feminina... Enfim). Como diria April Heinreichs, capitã da seleção feminina de futebol dos EUA em meados dos anos 90, em resposta aos 80 minutos de duração propostos para os jogos femininos do Mundial: “Eles devem achar que os ovários nos vão cair ao chão se jogarmos 90 minutos como os homens.”

É só ridículo desvalorizarmos à partida as aptidões de uma atleta com base no seu sexo, pondo de lado todo o seu treino e desenvolvimentos físico e estratégico. É por isso que este protesto levado a cabo pelo coletivo de ciclistas Donnons des elles au vélo” é tão interessante. À falta de capacidade de diálogo desde o final dos anos 80 (salvo erro, quando a prova feminina foi totalmente cancelada) nada como percorrer exatamente as mesmas etapas dos homens e mostrar, na prática, que estes preconceitos são simplesmente isso, preconceitos. E que se querem negar às mulheres uma prova deste calibre, que apresentem razões plausíveis, em vez de se refugiarem em argumentos sexistas.

Pescadinha de rabo na boca

Os homens têm direito a uma Volta a França, a elas é-lhes atribuídas a prova La Course, como o nome indica, com uma simples Corrida. Uma única etapa nos tempos que correm (para eles são mais de 20), sem igualdade de valor de prémio (vale metade do prémio atribuído aos homens por uma etapa semelhante) e sem holofotes virados na sua direção (a vencedora deste ano nem direito teve a uma conferência de imprensa, por exemplo). Já vai sendo tempo de percebermos que não basta darmos migalhinhas às mulheres para elas se calarem, que é exatamente o que esta La Course parece.

Tal como noutros eventos desportivos de grande projeção, é fácil percebermos porque é que este tipo de separação e de diferenciação de tratamento funciona como uma desvantagem na carreira de qualquer mulher ciclista. O Tour de France é a prova de maior prestígio da modalidade, o grande palco dos ciclistas, onde estes mostram o que valem, onde se definem talentos, onde se assinam contratos, onde os patrocínios e demais questões económicas, que tanta importância têm nas carreiras dos atletas, acontecem. Ora bem, se as atletas do sexo feminino são privadas de todo este cenário e respetivas vantagens que dele advêm, escusado será dizer que as suas oportunidades de evolução, recompensa económica e reconhecimento não são as mesmas.

Voltamos à questão da casa de partida, que no mundo do desporto em geral, invariavelmente, não é o mesmo para homens e mulheres. Não havendo um investimento claro nas atletas femininas, não há investimento nas provas e no tipo de prémios atribuídos. Não havendo este tipo de investimentos, é óbvio que a espetacularidade das provas – que em muito ainda validam as audiências – será sempre reduzida. Sem transmissões dignas desse nome, não há público em larga escala. E é claro que sem audiências, não há tanto lucro comercial. É uma pescadinha de rabo na boca.

O público não gosta de desporto feminino ou não há investimento nesse sentido?

Volto a colocar esta pergunta: Será que é o público que não tem interesse nas modalidades femininas ou será que é a falta de investimento, patrocínios, visibilidade televisiva e publicitária e demais fatores de mediatização do desporto que fomenta esse desinteresse? Olhemos para o Mundial de Futebol Feminino como exemplo de evolução. Se nos anos 90, quando começou, tinha pouca participação e era pouco mediático, essa realidade mudou muito até hoje. Não só existem cada vez mais praticantes da modalidade mundo fora, como também há mais marcas a investirem nas equipas, mais mediatização, consequentemente mais público e, óbvio, as receitas vão aumentando exponencialmente. Nos Estados Unidos, onde ao contrário do futebol masculino o feminino conquistou adeptos fiéis, a Fox arrecadou 40 milhões de dólares só em publicidade ao ficar com a transmissão do Mundial Feminino de 2015. Quatro vezes mais lucro do que em 2011, avançava a AdWeek.

Claro que o futebol masculino tem mais audiência mundo fora, assim como a Volta a França para ciclistas do sexo masculino teria durante boas décadas caso fosse aberta uma prova igual para mulheres. A dos homens leva mais de cem de existência e de promoção como vantagem, tal como a Copa do Mundo leva mais de 80. Mas será que se existisse vontade e um compromisso sério de fazer uma prova deste gabarito para mulheres, o ciclismo no feminino não evoluiria? Se existissem mais marcas a apostar em equipas femininas, mais investimento dos clubes nestas equipas, melhores condições de trabalho para as atletas profissionais e mais cobertura dos media, não existiria um maior interesse do público?

E agora aquela pergunta desconfortável, mas que também merece reflexão: será que os homens receiam perder o domínio absoluto de um universo, respetivas vantagens e visibilidade que foram só seus desde sempre? E será que por isso preferem ridicularizar as atletas femininas em vez de lhes darem oportunidades iguais? (sobre isto, aconselho-vos vivamente o filme “A Guerra dos Sexos” que conta a luta pela igualdade de Billie Jean King, uma das estrelas do ténis profissional nos EUA, nos anos 70). Um dia havemos de chegar a respostas.