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Expresso

A FIFA, as ‘mulheres atraentes’ e a igualdade pela rama

Dave Winter / Getty Images

O problema não são as mulheres atraentes, que têm tanto direito a aparecer na televisão como qualquer outra pessoa. O problema está na forma enviesada como olhamos e retratamos as mulheres. Reduzindo-as à sua aparência física, perpetuando estereótipos e validando a forma objetificada como boa parte do público olha para o sexo feminino. Tudo em prol das audiências

Os mais de 45 casos de assédio denunciados durante o Mundial parecem ter sido a alavanca para a recomendação FIFA quanto ao fim das “mulheres atraentes” em transmissões televisivas. Mas talvez seja importante percebermos que quando falamos de combate ao assédio no futebol, o problema não reside nas mulheres aparecerem na televisão. O problema está precisamente em acharmos que o problema passa por determinadas mulheres aparecerem na televisão. Confuso?

As declarações da FIFA deram muito que falar, e se por um lado há quem considere tudo isto uma forma de censura, por outro há quem aplauda e considere esta decisão o último reduto do feminismo em contexto futebolístico. Bom, nem tanto ao mar nem tanto à terra, que nestas matérias da igualdade às vezes – ou quase sempre – mais vale parar para pensar, não vá ser pior a emenda que o soneto. E digo isto porque me parece desde logo perigoso e contraproducente que se associe o combate ao assédio sofrido por tantas mulheres num evento como este a uma simples questão de filmagens de “mulheres atraentes” nas bancadas.

Corremos o risco de desvalorizar o ato do assédio em si, sugerindo que o problema está no facto de as mulheres atraentes aparecerem demasiadas vezes no ecrã. Como se essas imagens fossem uma provocação – ou provação – aos instintos supostamente incontroláveis dos adeptos masculinos. Ou seja, longe da vista, longe a tentação. A questão é que o problema não são as mulheres, estejam elas com decotes até ao umbigo ou cobertas da cabeça aos pés, sejam elas loiras ou morenas, magras ou gordas. O problema é o desrespeito e o machismo endémico que leva a que determinadas pessoas se sintam no direito de assediar, neste caso as mulheres.

A realização televisiva e a normalização dos estereótipos

Claro que muitas vezes a forma altamente preguiçosa e viciada com que se realizam jogos de futebol reforça a sexualização feminina, e que isso até pode induzir à normalização do assédio. Por exemplo, basta pensarmos na forma díspar com que se filmam os adeptos nas bancadas: invariavelmente, quanto mais pândegos ou inflamados eles são, mais aparecem. E quanto mais estapafúrdias forem as suas vestimentas, melhor. Se são ou não homens dentro dos estereótipos corporais que definem o típico “gajo bom” não interessa para nada. Já no que toca às mulheres, cumprir os critérios habituais da “boazona”, ou estar com roupas reduzidas, parecem ser critérios primordiais quando são filmadas ou fotografadas. Ou seja, ser sexy é fundamental, porque isto de se ser uma mulher patusca ou estapafúrdia nas bancadas do futebol não fica bem na televisão.

Escusado será dizer que estas opções de realização merecem reflexão. Até porque, em boa parte, elas acontecem graças a um 'modus operandis' totalmente enraizado, e que tem por base a forma desigual com que olhamos para os papéis de homens e mulheres, inclusive nas bancadas dos eventos desportivos. Eles como adeptos, elas como adereços. Mas se queremos ter esta conversa, é importante que também se reflita, por exemplo, na quantidade de fotogalerias que jornais vão publicando na corrida ao clique fácil, com títulos como “as futebolistas mais sexy do Mundial” (lembro-me desta no mundial feminino), “As bonecas suecas” (sobre a delegação sueca nas olimpíadas) ou “As adeptas nos estádios: escolha a sua preferida” (este foi no Euro). A base destes artigos é exatamente a mesma.

No que toca ao desporto, a questão é: proibir imagens de mulheres atraentes é a solução para o assédio no futebol? Claro que não. Mais uma vez, o problema não são as mulheres atraentes, que têm tanto direito a aparecer na televisão e em jornais como qualquer outra pessoa, independentemente da sua aparência. O problema está na forma enviesada como olhamos e retratamos as mulheres. Reduzindo-as à sua aparência física, perpetuando estereótipos e validando a forma objetificada como boa parte do público olha para o sexo feminino. Tudo em prol das audiências.

Não é uma proibição, é uma recomendação

Contudo, é importante percebermos a diferença entre proibição e recomendação, que na realidade foi o que a FIFA fez. A primeira seria uma simples forma de censura, e não é certamente com censuras e proibições deste género que conseguiremos criar consciência para um mundo igualitário entre géneros. Além de que, mais uma vez, proibir imagens de “mulheres atraentes” seria apenas mais um castigo múltiplo para o sexo feminino: por um lado, as que encaixassem nos estereótipos da “boazona” perdiam o seu direito a aparecer por causa da sua aparência, como se isto de ser atraente fosse uma doença com efeitos nefastos (entre eles, provocar impulsos incontroláveis em série nos adeptos masculinos, coitados). Por outro lado, estávamos com isto a dizer que todas as mulheres que aparecessem num ecrã de televisão seriam rotuladas de feias. Isto no que toca a reforço de estereótipos era uma delícia, por mais que à partida até possa não parecer.

A questão é que possivelmente ainda ajuda que se recomende aos profissionais da comunicação que não o façam, nem que seja para que fiquem um bocadinho atentos aos vícios da utilização da imagem feminina. Que comecem a questionar as suas opções em vez de as fazerem de forma automática. Que tratem os adeptos como adeptos, independentemente do género. E se há coisa que é bonito ver na televisão, em qualquer evento desportivo, são adeptos ferrenhos, divertidos, fervorosos, sejam sexy ou não. Basicamente foi isto que a FIFA fez, e enquanto recomendação não me chateia porque faz sentido. Chateia-me sinceramente é que o faça desta forma pouco refletida, colada de forma perigosa ao tema do assédio, digno de quem ainda vê estas matérias pela rama. Até porque se realmente promovesse uma análise séria quanto à importância da igualdade, certamente também escolheria melhor os anfitriões para os seus campeonatos milionários.