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Expresso

A moda das estrias e da celulite chegou para ficar

Há cada vez mais marcas que apostam em catálogos com imagens de modelos com estrias, celulite, refegos e diferentes formatos. Sim, isso mesmo, estrias e celulite. Numa altura em que as mulheres questionam cada vez mais os estereótipos e expectativas que recaem sobre os seus corpos há décadas, o mundo da moda parece estar a perceber que o caminho passa pela normalização da figura feminina. Ámen

Lembro-me de há uns meses ir na rua e um mupi com uma campanha da H&M me fazer parar: uma modelo sentada no chão, surgia com a saliência da dobra da barriga provocada pela posição, sem retoques de Photoshop. É engraçado como algo tão normal nos consegue fazer parar, de tão estranho que parece visto assim em grande, como se não fosse suposto. Aconteceu o mesmo com uma amiga minha que esta semana não conseguiu deixar escapar um “uau, já viste que ela tem celulite?” ao olhar para as modelos em lingerie no site da Oysho. Alguma coisa está a mudar no universo da moda? Eu diria que sim.

É interessante perceber como imagens destas ainda geram este efeito surpresa. Durante décadas fomos tão habituados a olhar para catálogos e campanhas de moda com imagens totalmente retocadas, carregadas de figuras femininas com corpos supostamente perfeitos e imaculados, que olhar para corpos com marcas, formatos, curvas, manchas, cores, pêlos e demais caraterísticas reais, nos parece de certa foram estranho. Se por um lado isto começou a ser visível em marcas que nasciam de raiz com a bandeira assumida do chamado “body positive” – como a Swimsuits For All da modelo 'plus size' Ashley Graham ou a marca de lingerie Lonely – a verdade é que há cada vez mais marcas a apostarem na imagem daquilo que se vai chamando de “mulher real”.

d.r.

Claro que a Dove continua a ser aquela marca que muitos de nós associaremos quando se fala de elogio à diversidade e aceitação corporal. Mas se há dez anos esta era provavelmente a única marca 'mainstream' que arriscava abordar a importância de democratização da beleza e consequente redução de estereótipos associados ao corpo feminino, nos últimos dois anos vamos vendo o despertar de inúmeras marcas para esta necessidade. No site da Oysho aparecem agora, por exemplo, modelos com estrias, manchas na pele, pequenos refegos na barriga e, ora rabos redondos, ora rabos achatados. No da H&M, juntamos a isto as imagens recentes de uma modelo com uma cicatriz de operação ao apêndice e outras com celulite nas coxas, por exemplo. No site da ASOS, gigante das compras de roupa online, são mais que muitas as mulheres com diferentes tamanhos e formatos de corpo.

O caminho passa pela normalização dos corpos

Tal como eu senti necessidade de parar e olhar melhor porque algo me parecia errado quando vi aquele mupi da modelo com um refego, acredito que esta democratização da representação feminina nas campanhas de moda ainda provoque o tal factor estranheza a muita gente. Não porque consideremos estranho uma mulher ter refegos, celulite, estrias, manchas, etc, mas sim porque não estamos habituados a que o mundo da moda – que tem um enorme impacto na manipulação coletiva da visão da sociedade sobre a estética - nos diga que isso é simplesmente normal. A isto juntam-se as revistas de moda que seguem pelo mesmo caminho, adicionando ao bolo da diversidade as questões raciais e culturais. Há dez anos ninguém diria que seria possível vermos uma capa da Vogue com uma modelo de hijab, por exemplo, ou uma edição da Sports Illustrated com modelos que vestem acima do número 42. Hoje já ninguém duvida. Nem consegue ter uma resposta única se tiver de adivinhar as modelos escolhidas para capas de publicações icónicas deste meio.

d.r.

Óbvio que, mais uma vez, há uma componente de marketing nesta estratégia, tanto na imprensa, como na moda e, é claro, no meio artístico (olhemos para os corpos de grandes ícones femininos dos tempos modernos como Beyoncé, Demi Lovato ou Rihanna, por exemplo). O mundo está a mudar, e é inequívoco o crescente questionamento das mulheres quanto à múltiplas regras, estereótipos, expectativas e demais condicionantes que têm servido de espartilho à sua liberdade e aceitação individual. Termos um mundo onde as mulheres se sentem bem na sua pele, independentemente de não serem iguais às imagens femininas inalcançáveis que figuram em revistas, catálogos ou spots publicitários, seria um problema para muitas das marcas mainstream. E claro que é preciso combater isso, não só acompanhando a evolução de mentalidades, como fazendo parte dela.

Tal como questionava aqui esta semana quanto ao marketing social utilizado por artistas como a poderosa Anitta, será que esta opção, que tem por base fins económicos, é hipócrita? Talvez. Mas mais uma vez é preciso olhar para o impacto global que isto tem e entendermos a força do lado meio cheio do copo. Por mais ou menos dinheiro que isto possa gerar graças aos públicos que capta, estas campanhas têm o condão de ajudar normalizar a nossa forma de olharmos para aquilo que durante tantos anos considerámos – ou que fomos levados a considerar - corpos imperfeitos. Muito provavelmente daqui a uns anos já ninguém se vai surpreender de ver uma mulher gorda ao lado de uma magra num catálogo de moda, nem tampouco rabos com estrias e celulite (incluindo as mulheres magras, tão importante frisar!) ou uma pele manchada e com cicatrizes. Se assim for, é porque o mundo está finalmente a dar passinhos em frente.