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Expresso

O show das poderosas e o marketing social

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Há algo de grandioso quando vemos 90 mil pessoas a cantar, dançar e aplaudir uma artista que leva o funk carioca – com tudo o que simbolicamente ele implica - a um palco lisboeta. Tal como é grandiosa a mensagem que se passa a uma audiência composta maioritariamente por adolescentes e jovens mulheres, quando se juntam dançarinas de diferentes cores e tamanhos a abanar a anca em ritmo sensual, no domínio do palco e não como simples adereços masculinos. Isto da aceitação corporal e do empoderamento feminino agora vende? Claro. Seja como for, Anitta foi a rainha da festa no Rock in Rio, e por mais marketing estudado ao pormenor que esta prestação envolva, a mensagem global que ela passa é positiva. E o verdadeiro show das poderosas também é esse.

Há sempre pelo menos duas maneiras de olhar para estas coisas. E é claro que é simplesmente fácil encontrar razões para criticar quando artistas rompem com a norma e se apresentam confiantes, num formato que causa desconforto interno ao estereótipos e papéis sociais enraizados. Anitta é uma dessas artistas. A persona que ela representa rebola tanto em palco quanto nos seus videoclipes. Usa micro saias e decotes até ao umbigo, canta letras debochadas, muitas delas sobre sexo e prazer no feminino, faz dos movimentos do seu rabo a sua imagem de marca, usa a abusa do corpo enquanto ferramenta para a sensualidade e para a conquista do poder sobre o outro, principalmente os homens. Muitos diriam que tudo isto não passa apenas do perpetuar da sexualização da imagem feminino, e da redução da mulher a objeto de prazer, quando as mulheres são muito mais do que os seus corpos. É uma forma de ver as coisas, e não está errada. Outros repetem as próprias palavras da artista, e olham para isto de outra forma: “não é uma roupa curta, não é o rebolado, não é o facto de você beijar quantas pessoas você quer beijar numa noite, que vai dizer se você é inteligente, se você é capaz, se você tem talento, se você pode cantar, fazer ou deixar de fazer”. Basicamente, que quem manda no seu corpo é ela e que uma mulher não há mais nem menos pelas decisões do que faz com o seu. E isto também não está errado. Então em que é que ficamos?

As várias formas de ver Anitta

Anitta vai agradando a gregos e a troianos com a sua performance, mas nem sempre os gregos e os troianos ficam felizes ao mesmo tempo. Porque aquilo que pode ser uma mensagem positiva para uns, de acordo com os contextos e dimensões das suas vidas, para outros - também de acordo com os seus contextos e dimensões individuais - pode significar retrocessos. Um bom exemplo foi a polémica em torno do videoclip “Vai Malandra”: muitos aplaudiram-na por ter usado a favela Vidigal como cenário e os seus moradores como figurantes, reproduzindo cenas da vida real daquele contexto (por mais romantizadas que estivessem), dando-lhes palco e pondo-os nas luzes da ribalta quando o resto do mundo os ostraciza e tenta torná-los invisíveis. Outros tantos acharam que era mera ‘performance periférica’, e que esta acentuava os estereótipos sobre a vida e as pessoas daquele contexto, em vez de as dignificar. Também nesse vídeo muitos aplaudiram Anitta pelo grande plano do seu rabo com celulite, enquanto mensagem positiva sobre as chamadas ‘imperfeições do corpo’ com que tantas mulheres têm de lidar. Outros disseram que era uma hipocrisia ela aparecer sempre retocada de Photoshop e agora usar esta mensagem do ‘corpo real’ para vender discos, principalmente quando já fez uma série de operações plásticas para mudar o seu.

Também nesse vídeo Anitta assume o seu ‘lado negro’, e em vez do cabelo esticado aparece com o seu cabelo crespo e com trancinhas, e puxa pela imagem do “coxão” possante – o seu e os das outras mulheres negras do vídeo - enquanto statement de sensualidade. Muita gente aplaudiu, considerando a opção um género de ode às suas raízes negras. Mas muitos outros acharam hipócrita, condenaram-na por “afroconveniência” e por mais uma vez acentuar os estereótipos associados às mulheres negras. Todos estes aplausos e críticas são válidos, escusado será dizer. Mais uma vez, depende do ponto de vista e da realidade de cada um. Conseguir aceitar isso também devia fazer parte da discussão.

O concerto de Anitta foi inclusivo ou nem por isso?

O mesmo para a prestação de ontem no Rock In Rio. Por exemplo, foi refrescante ver 90 mil pessoas a aplaudir entusiasticamente as duas bailarinas plus size que apareceram em palco e que deram um show de dança e de sensualidade, independentemente dos volumes dos seus corpos. Tudo aquilo gritava a eterna mensagem de Anitta: “toda a gente dizia que não era possível, mas eu cheguei aqui”. Chegou ela, nascida num bairro precário da zona norte do Rio, e que nem dinheiro tinha para comprar roupa para ir trabalhar quando conseguiu o seu primeiro emprego. Chegaram os seus dançarinos, que em grande parte nasceram em zonas desprivilegiadas do Brasil e que agora atuam em palcos mundo fora. Chegaram aquelas mulheres obesas, que provaram que não é o tamanho do seu corpo que define o seu potencial enquanto dançarinas (o momento da espargata ficou certamente na memória de muita gente), nem tampouco as roupas que podem usar ou a conquista de um lugar em palco para dançar sensualmente perante milhares de pessoas. Toda esta mensagem é muito forte.

Claro que se analisarmos esta questão à lupa, podemos também criticar e dizer que dentro da sua tentativa de inclusão, Anitta acabou por acentuar a diferenciação daquelas duas dançarinas ao colocá-las no início do espetáculo com biquínis de cores diferentes das demais mulheres em palco, por exemplo. Ou que se queremos falar de diversidade, não faz sentido termos um grupo principal de dançarinas com formatos corporais semelhantes e depois duas dançarinas gordas extra, que aparecem só de vez em quando nas coreografias, como se fossem um adereço mediático e não verdadeiramente parte do coletivo. Ou que se queremos fazer um elogio à diversidade corporal, não basta optarmos por trazer a palco duas mulheres obesas, temos também de trazer mulheres magras e sem ‘bundão’, mulheres com simples excesso de peso (que não é o mesmo que ser obesa) ou mulheres trans, por exemplo, porque todas elas são dignas de dançar um belo funk em palco, e de expressar a sua sensualidade. Mais uma vez, depende sempre do ponto de vista de quem observa.

Queremos um ícone para s nossas lutas?

A realidade é que são muito poucos os artistas a quem exigimos uma mensagem social implícita na sua música e performance. Ou a quem exigimos total coerência na sua vida dentro e fora dos palcos. Com Anitta há uma expectativa clara nesse sentido porque ela – de uma forma ou de outra - aborda temas delicados, que nos afetam a todos, e sobre os quais ainda não há consenso. E porque na falta de múltiplos exemplos mediáticos a seguir, continuamos a ansiar por ícones modernos que sejam os rostos das várias lutas que travamos diariamente. Mas Anitta não tem essa obrigação. Ela é o que lhe apetece, e em jeito de camaleão, vai sendo várias coisas. Principalmente uma incrível estratega do mundo do showbizz (não é ao acaso que está na lista dos artistas mais influentes da Bilboard) .

A mensagem da aceitação corporal vende? Vende, e a máquina de negócio por trás da persona Anitta sabe bem disso. Tal como sabe bem quanto vende atualmente a mensagem da diversidade, tenha ela enfoque nas questões raciais, nas da orientação sexual ou na liberdade erótico-sexual feminina. Isto é hipócrita? Talvez. Mas se dentro do universo da fantasia e do showbiz conseguirmos que as massas levem para casa a mensagem da importância de aceitarem e respeitarem o próximo como um par, todos temos mais a ganhar do que a perder. Podemos gostar ou não da sua performance e música, mas se pensarmos em larga escala é precisamente isso que o funk de Anitta tem andado a fazer. E esse mérito ninguém lhe tira