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Expresso

A grande festa da misoginia no Mundial de Futebol

d.r.

“Esta é bem rosinha. Que delícia. Buceta rosa, buceta rosa”. Um grupo de homens brasileiros salta e canta estas frases em volta de uma mulher russa. A mulher não percebe uma palavra e sorri, saltando com eles, alinhando naquilo que parece ser apenas mais um momento da festa do Mundial. O vídeo chega às redes sociais e gera indignação. “Mas porquê levar a mal esta brincadeirinha?”, vou lendo por aí. Como diria a atriz Fernanda Lima sobre as imagens: “Não é engraçado. É machismo. Misoginia. Vergonha, muita vergonha”.

Este foi apenas um dos vários vídeos que vão surgindo nas redes sociais com foliões do Mundial de Futebol que abordam mulheres de outras nacionalidades que não as suas, cantando frases de cariz sexual em jeito de brincadeira. Ou que decidem troçar de hospedeiras de bordo, por exemplo, ao gritarem-lhes comentários inapropriados. E fazem-no em bando, porque nisto do assédio a união também faz a força para desarmar o outro lado. Também vão surgindo cada vez mais vídeos de jornalistas do sexo feminino que vão sendo interpeladas durante os seus vivos televisivos, como uma brasileira e uma colombiana que foram beijada em direto, ou outra que teve de afastar ao empurrão três adeptos argentinos que em vez de responderem às suas questões a tentam abraçar.

Muitos dos grupos que fazem estas abordagens também filmam. Tal como em tantos casos recentes de abuso sexual em grupo – como no caso La Manada, nas Festa de San Fermin, ou da mulher violada por 30 homens numa favela do Rio – parece ser cada vez mais essencial registar e partilhar com os demais o grande ato de humilhação ao próximo – neste caso, às mulheres que são interpeladas de forma abusiva. E pelos risos e tons de escárnio destes foliões do Mundial, que entoam coletivamente canções sobre a genitália feminina, e que fazem apreciações públicas e indecentes sobre os corpos de mulheres que não conhecem, eles sentem orgulho no ato. É preciso entendermos que o fazem porque se sentem no direito de o fazer, porque acham que não estão a fazer nada de mal e porque sabem que nada lhes vai acontecer.

O sentimento de direito de apropriação do corpo feminino é inaceitável

Podemos até achar que tudo se resume a ânimos demasiado animados, talvez fruto de consumos excessivos que retiram o discernimento. Há possivelmente quem também ache piada e alinhe na suposta paródia, e quem considere que isto faz simplesmente parte da festa. Mas será que estes comportamentos têm assim tanta piada? São inocentes na sua génese e concretização? Ou será que são um reflexo claro da forma redutora e desigual como tantas vezes as mulheres ainda são encaradas simplesmente por serem mulheres? Também podemos voltar ao cliché da pouca formação ou nível económico e social dos envolvidos, mas sejamos francos: quem tem dinheiro para viajar meio mundo para assistir a um campeonato de futebol, não é propriamente alguém que viva a contar os tostões. O machismo está no meio de nós nas mais diferentes formas e dimensões, perpetuado tanto por ricos como por pobres, por pessoas com mais ou menos formação académica, independentemente dos continentes onde vivem. A violência de género é um problema do mundo, em geral.

Ao olharmos para vídeos como estes, é nítido o sentimento constante de direito de apropriação do corpo feminino. Como se tocar de forma íntima numa mulher sem a sua autorização, dizer-lhe frases obscenas em praça pública ou insultá-la não fosse nada por aí além. Mas é. Por mais constante e comum que tal comportamento ainda seja nos dias de hoje, isto tem de ser visto como algo grave e inaceitável. Estas formas enxovalho e assédio em praça pública são bem demonstrativas da desumanização que se faz figura feminina e do desrespeito com que ela – nós – ainda é encarada : como um simples objeto de desejo, fetiche e prazer, e não como um par. Reduzindo-a nas suas múltiplas dimensões enquanto ser humano.

Basicamente, estes mulheres são olhadas e interpeladas simplesmente como o buraco que têm entre as pernas. “Bucetas rosas”. “Coisas deliciosas”, cantam eles. Se até em ambiente de festa a interação entre pessoas de sexos diferentes continua a ser pautada por estas demonstrações de poder, superioridade e desrespeito, não é para admirar que as estatísticas mundiais relacionadas com violência sobre as mulheres - principalmente no que toca a assédio e abuso sexual - sejam tão catastróficas. Se isto não é um espelho claro da misoginia que ainda prolifera neste mundo, então não sei o que é. Que vergonha, mundo.