Siga-nos

Perfil

Expresso

“As mulheres agora queixam-se de tudo”. E isso é mau?

Tenho ouvido esta frase amiúde em resposta os múltiplos protestos que surgem mundo fora. Sim, se quisermos ver isto pela rama é fácil achar que esta vaga de mulheres que saem à rua a protestar é apenas uma mania, em jeito de ‘Maria vai com as outras’. Mas será que as mulheres são assim tão reduzidas intelectualmente que só o fazem por uma questão de mimetismo e histeria coletiva? Ou será o resultado de um crescente despertar de consciências para a importância de se quebrar o ciclo histórico de discriminações múltiplas a que as mulheres foram e são sujeitas?

Por cá, tenho participado em várias manifestações pelos direitos das mulheres, levadas a cabo por pessoas cheias de garra, e com uma consciência profunda para esta necessidade de mudança. Contudo, também me tenho cruzado com inúmeras mulheres que me dizem repetidamente a frase: “Para quê protestar se as coisas nunca mudam?”. Talvez por isso ainda não tenha acontecido um momento #MeToo em Portugal, por exemplo. Mas a verdade é que “as coisas” vão mudando, e que sair à rua, demonstrar indignação e exigir alterações ao que está mal pode dar frutos concretos. Claro que dá trabalho e que nem sempre os resultados são óbvios, nem tampouco são rápidos a surgir. Mas se olharmos mundo fora percebemos que, por que mais que possam demorar a chegar, há alterações à lei e demais medidas governamentais concretas que só aconteceram porque alguém que teve a ousadia de elevar a voz para dizer basta. E quando as vozes são muitas, e insistentes, está comprovado que é bem mais difícil que sejam ignoradas.

Lembram-se da alteração da despenalização do aborto na Irlanda, que ainda há poucas semanas deu que falar? Isto só aconteceu depois dos protestos recorrentes de milhares de pessoas, maioritariamente mulheres, que se revoltaram na sequência da morte de uma jovem mulher a quem foi recusada a possibilidade de aborto. Savita Halappanava estava grávida e dirigiu-se a um hospital com dores intensas e perdas de sangue. Lá disseram-lhe que estava com uma infeção severa e que a gravidez não iria até ao fim. Contudo, recusaram-se a induzir o aborto e mandaram-na para casa com a resposta “somos país católico”. Savita morreu e 20 mil pessoas saíram às ruas de Dublin para exigir que mais nenhuma mulher tivesse de passar pelo mesmo. Foi o primeiro protesto de muitos. Demorou, mas foi: no fim de maio foi feito um referendo nacional onde o “sim” à despenalização do aborto venceu com 67% dos votos populares. Isto teria sido possível se ninguém tivesse saído à rua? Não sei, mas algo me diz que iria demorar muito tempo até que por iniciativa própria os governantes irlandeses o fizessem.

Alguns exemplos recentes

Em 1975, as mulheres islandesas mudaram o rumo do país quando fizerem uma greve geral. Resumindo, recusaram-se a trabalhar fora e dentro de casa por um dia. Muito mudou no país nessa altura, e a Islândia foi-se tornando num exemplo a seguir no que toca às matérias de igualdade. Contudo, chegadas a 2016 ,as mulheres do país perceberam que estavam longe de ter uma situação de igualdade salarial entre homens e mulheres e voltaram a entrar em greve para que isso mudasse. Exigências que foram tidas em conta: em janeiro de 2018, entrou em vigor uma lei que proíbe o pagamento de salários diferentes para o desempenho das mesmas funções. As empresas que não respeitarem isto serão penalizadas. Caso único no mundo, já agora.

Se olharmos para a composição do atual Governo do país vizinho – com uma maioria feminina à frente das principais pastas de Espanha -, também percebemos o impacto que as manifestações do 8 de março tiveram no rumo do país. Sob o lema "Se pararmos, o mundo para”, o Dia Internacional da Mulher foi assinalado em Espanha por uma massiva greve de mulheres um pouco por todo o país, que se juntaram aos milhares nas ruas das principais cidades espanholas para reivindicar por uma sociedade com maior igualdade salarial, mais paridade na atribuição e partilha dos cuidados domésticos e familiares, fim da cultura machista, luta contra a violência doméstica, assédio e abuso sexual sobre o sexo feminino, mais mulheres no poder. Há duas semanas, Pedro Sanchez, novo primeiro-ministro do país, deu a conhecer a composição do seu Governo formado por uma maioria de 11 mulheres, em 17 ministérios. Esta opção nas esferas do poder político teria sido a mesma se estes protestos não tivessem acontecido?

Também no Peru as coisas estão a mexer: o assassinato de uma jovem mulher que era perseguida há dois anos pelo homem que a acabou por matar, e que nunca conseguiu obter ajuda junto das autoridades, levou a que milhares de mulheres saíssem à rua em protesto. O Presidente do país acabou por anunciar um pacote de medidas concretas do Governo para combater estas situações, incluindo a criação de uma comissão de emergência que deverá trabalhar em políticas públicas e ações educativas com enfoque na violência de género. Mesmo nos países mais difíceis e proibitivos para se nascer mulher, como é a Arábia Saudita, a mudança vai acontecendo. Se as mulheres sauditas já podem tirar carta de condução e conduzir, é porque nos últimos anos muitas mulheres arriscaram literalmente a vida ao fazerem protestos através das redes sociais. Muitas foram presas pelo caminho, mas desde há três semanas este é um direito conquistado e validado pela lei daquele país.

Quantas mais mulheres saírem à rua, mais fácil será para outras saírem

Podia passar o resto da tarde a dar exemplos. Claro que os movimentos de mudança nunca são fáceis, e que haverá sempre quem veja a sua posição de privilégio ser ameaçada. Quem tente ridicularizar estes movimentos, quem descredibilize o que está a acontecer, recorrendo ora à violência, ora à condescendências de algibeira.

Mas, tal como dia em cima, a verdade é que o mundo está a mudar e quantas mais mulheres saírem à rua, mais fácil será para outras saírem. Não por mimetismo, mas porque percebem que não estão sozinhas. Tal como com o movimento #MeToo, que começou em Hollywood e que acabou por se tornar num catalisador de denúncias à escala mundial, também noutras temáticas se começa a perceber quão importante é termos exemplos de pessoas que passam pelo mesmo e que decidem dizer ‘basta’. Que se mobilizam, que se organizam, que metem o dedo na ferida e que não se calam, mesmo quando não são levadas a sério à primeira.

Durante séculos as mulheres não tiveram outra opção do que silenciar as dores provocadas pela injustiça e pela discriminação de género. “Pecar pelo silêncio, quando se deveria protestar, transforma homens em cobardes”, escrevia Ella Wheeler Wilcox no início do século passado. Cem anos depois, as mulheres parecem ter conquistado a força coletiva, a independência individual e, consequentemente, a coragem suficiente para perceberem, a uma escala cada vez mais global, que esta frase também é sobre a sua realidade. Felizmente, são cada vez mais os homens que se juntam a elas – a nós. E que percebem que embora estes protestos possam ter como motor de arranque as vidas de quem nasce mulher, na prática vão influenciar positivamente a vida de todos nós.