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Expresso

“A minha vida não é um filme pornográfico”

d.r.

Imaginemos que cada vez que entrava numa casa de banho pública, num quarto de hotel, num balneário, numa piscina ou numa cabine de provas de roupa corria o risco de estar a ser filmada. E que essas mesmas imagens do seu corpo iam parar a sites de pornografia. O mesmo para imagens do seu rabo quando usa saia ou vestido, captadas por câmaras escondidas em sapatos. No metro, em cafés, lojas, estações de correios, na rua. Isto acontece frequentemente na Coreia do Sul e foram mais de 20 mil as mulheres que saíram à rua para dizer basta, naquela que é já considerada a maior manifestação feminina de que há memória no país. "A minha vida não é a tua pornografia", gritaram elas.

Na semana passada, mais de 270 mil pessoas assinaram uma petição que exigia ao Governo sul-coreano medidas concretas no que toca à investigação célere e igualitária destes casos. E usam a palavra igualitária porque esta petição surge precisamente depois da onda de indignação pública causada por uma mulher ter sido presa pouco menos de duas semanas depois de ter partilhado publicamente, e sem autorização, a foto de um colega que pousava nu para alunos de belas artes. A sua prisão foi amplamente reportada pelos media (que foram avisados pelas autoridades sobre o caso), e a cara da mulher saiu em todos os meios de imprensa em jeito de exemplo do que pode acontecer a quem fizer isto.

A indignação coletiva não passa pelo facto de a mulher ser punida pelo crime que cometeu, passa pelo facto de tal prontidão na prisão efetiva nunca ter acontecido com nenhum homem que tenha cometido tal crime. Tal como a exposição e escrutínio público em plena fase de investigação. Como diria uma das manifestantes, citada pelo "Korean Times", "demoraram 10 anos a conseguir deitar abaixo o maior site de pornografia deste género que disponibilizava diariamente centenas de fotos ilegais, e apenas duas semanas a prenderem uma mulher por ter feito upload de uma única foto. Não acham estranho?"

d.r.

Números de 2016 mostravam que nas mais de 5000 queixas apresentadas por divulgação ilegal de imagens íntimas, 85% das vítimas eram mulheres filmadas por homens. No mesmo ano, chegaram às autoridades 7300 queixas da chamada revenge porn, maioritariamente usada contra mulheres por ex-maridos e ex-namorados. Entre 2012 e 2017, apenas 2,6% dos quase 23 mil suspeitos deste crime foram efetivamente detidos pela polícia, pelo que conseguir que se faça justiça, e que consequentemente as vítimas sintam que estão a ser levadas a sério, é um dos grandes problemas. Por exemplo, um dos últimos casos que chegou a tribunal envolvia quatro nadadores profissionais que tinham instalado câmaras nos balneários das colegas do sexo feminino e partilhado as suas imagens em sites de pornografia. Escusado será dizer que acabaram por ser ilibados e o caso foi esquecido. Muito provavelmente, o mesmo não acontecerá com esta mulher que está a ser usada como exemplo público de justiça.

Se dúvidas há quanto à gravidade de tais atos, nunca é demais relembrar que se trata de um crime que desumaniza as suas vítimas - maioritariamente mulheres - e as trata como objetos de fetiche, desejo e prazer sem o seu consentimento. São atos criminosos que violam a sua privacidade e intimidade, que provocam o receio coletivo e que inequivocamente privam parte da população de usufruir livre e descontraidamente não só do espaço público, como dos contextos de intimidade. Não é aceitável que isto aconteça, nem tampouco é tolerável a inércia e descrédito das autoridades ao lidarem com tais casos.

Num protesto de dimensões nunca vistas na Coreia do Sul, as mulheres vestiram-se de vermelho e gritaram por justiça nas ruas de Seul. Por igualdade na rapidez e seriedade nas investigações, que continuam a ser desvalorizadas quando os alvos são mulheres, uma vez que essa é uma situação tão recorrente que acaba por estar de certa forma normalizada. No mesmo protesto, um apontamento simbólico: a larga maioria das mulheres levava a cara tapada, precisamente para evitar que os seus rostos acabassem por revelar as suas identidades e isso servir de gatilho a posteriores situações de bullying online. Isto diz muito quanto ao clima de medo instalado.

A Coreia do Sul tem um longo caminho a percorrer no que toca à igualdade

No ranking para a igualdade de género do Fórum Económico Mundial, a Coreia do Sul surge em 116.º lugar (num total de 144 países). A Human Rights Watch relembra também que num estudo recente feito pelo Instituto de Criminologia Coreano, que contou com a participação de 2000 mil homens sul-coreanos, 80% dos inquiridos admitiam já ter abusado física ou psicologicamente de uma mulher com quem mantinham uma relação de intimidade.

Outra pesquisa governamental mostrava que 78% das mulheres vítimas de assédio em contexto laboral não apresentavam queixa porque tinham a certeza de que não seriam levadas a sério. Na Coreia do Sul o aborto continua a ser punido com penas de prisão até um ano, sendo apenas legal em caso de incesto, violação, risco de vida para a mãe, problemas de saúde hereditários ou se os pais não se puderem casar legalmente. Contudo, quando se trata de uma mulher casada, esta só pode abortar em qualquer uma destas situações se tiver a autorização por escrito do marido.

Tal como em tantas outras partes do mundo, não é difícil perceber que há um longo caminho pela frente no que toca a desconstruir estereótipos e discriminações de género institucionalizadas na Coreia do Sul. E as mulheres sul-coreanas têm demonstrado no último ano que estão fartas deste status quo histórico que as diminui e prejudica no dia a dia, tornando as suas vidas inquestionavelmente mais difíceis. Vários protestos foram feitos desde 2017, tanto por causa da alteração à lei do aborto (que o Governo coreano continua a empurrar com a barriga), como no que diz respeito a medidas concretas para evitar casos de assédio e abuso sexual, resultantes do movimento #MeToo, como até mesmo para tornar menos fácil a venda de microcâmaras de vigilância, as mesmas usadas amiúde para captar estas imagens que vão parar a sites pornográficos.

Pouco mudou, mas pelo menos a pressão interna começa a ser maior, tal como o risco de ebulição social. Esta manifestação de proporções históricas é um belo exemplo disso, agora só falta perceber quando é que o Governo sul-coreano vai levar a sério as mulheres da sua população.