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Liberdade e poder: O Sexo e a Cidade era sobre isto?

Se não fossem os múltiplos artigos que ontem saíram sobre isto, nunca eu me lembraria: sim, foi há 20 anos que o primeiro episódio da série “O Sexo e a Cidade” foi transmitido. Carrie, Charlotte, Miranda e Samantha foram as mulheres que entraram nas nossas casas no fim dos anos 90, fazendo-nos rir, chorar e, é óbvio, corar. Porque é que tanta gente as adorou? Simples: porque na altura era uma lufada de ar fresco ver mulheres que quebravam estereótipos e que nos mostravam que a vida feminina não tinha de ser a preto e branco. Se fosse hoje, a série não teria o mesmo impacto. Mas há vinte anos foi um bálsamo.

Claro que todas elas tinham vidas incríveis e que aquele quotidiano era muito pouco representativo até mesmo da maioria da população feminina de Nova Iorque. Todas elas eram mulheres brancas, com elevado poder económico, viviam em Manhattan, vestiam grandes roupas e sapatos, iam às melhores festas, jantavam e bebiam copos nos melhores restaurantes e bares. Eram mulheres privilegiadas, portanto. Claro que se fosse hoje, esta série só poderia fazer sentido e ter tanto impacto se este conjunto de mulheres mostrasse realidades distintas, porque cada vez mais vamos entendendo quão distintas podem ser as vidas das mulheres – e das pessoas em geral – de acordo com os seus diferentes contextos sociais, culturais, étnicos, económicos e de orientação sexual.

O mundo evoluiu, as preocupações são outras, e hoje faria sentido se se falasse de disparidades salariais, de assédio sexual, de objetificação da mulher ou de violência na intimidade, por exemplo. Mas na altura estávamos longe desse entendimento e questionamento sobre a desigualdade de género, e o simples facto de vermos na televisão mulheres a comprarem casas sozinhas, a falarem sem complexos sobre algo como um vibrador, abordado como um objeto de prazer totalmente normal, ou em cenas de masturbação feminina que nos mostravam quão essencial e natural é descobrirmos o nosso próprio, era algo e peras. No Portugal dos brandos costumes estas coisas não passavam de material pornográfico (talvez por isso a série passasse para lá da meia-noite), naquela série eram só o dia-a-dia de qualquer mulher.

Afinal, as mulheres não se resumiam ao papel de cuidadoras, mães e esposas

Não vou alongar-me muito quanto ao rol de clichés e mensagens castradoras que hoje encontro ao rever a série, começando desde logo pelo culto da aparência estética estereotipada, por exemplo. Mas se recuarmos vinte anos e pensarmos no que eram as nossas vivências nos anos 90, facilmente percebemos que assistirmos na primeira fila às vidas de mulheres erótica e sexualmente desinibidas, financeiramente independentes, arrojadas na forma de vestir, com consumos e hábitos desempoeirados e com discursos públicos socialmente pouco polidos, poderia ter um impacto grande na forma de desconstruirmos o nosso papel no mundo. Afinal, as mulheres não tinham de se resumir ao seu papel de cuidadoras, mães e esposas, regra geral discretas, frágeis, dóceis, comedidas e com limitada aspiração profissional. Havia um universo paralelo de possibilidades para além disso.

Basicamente, “O Sexo e a Cidade” mostrou-nos que podíamos ser o que quiséssemos, e que nenhuma destas escolhas era menor: tanto era válida a mulher que não deseja ser mãe e que tem a carreira profissional como grande objetivo de vida, como a mulher que abdica da carreira para se dedicar ao sonho de casar com véu e grinalda e que quer ficar em casa para ser mãe a tempo inteiro. O mesmo para a romântica incurável que, embora se considere uma mulher independente, vive à mercê da atenção de um homem que não quer assumir compromisso, como também a mulher que não quer envolvimento emocional com ninguém e que a única coisa que quer dos homens é sexo descomprometido e muita diversão. Por outro lado, a série mostrava-nos também que não só todas estas mulheres se podiam aceitar umas às outras na sua individualidade, como podiam ser grandes amigas e cúmplices, independentemente das suas diferenças. E melhor: deixava claro que na vida há espaço para a mudança, e que a nossa vontade e papel não têm de ser estanques.

Se há coisa que “O Sexo e a Cidade “fez foi deixar-nos claro que palavras como liberdade individual e poder também podiam ser eixos centrais nas vidas femininas, e isso é algo incrível enquanto mensagem subliminar naquela época. Por mais que hoje a série não fizesse tanto sentido, ainda bem que há vinte anos alguém arriscou fazer algo assim.