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Expresso

Exposição vandalizada na UBI: foi por acaso?

A exposição resultava de um trabalho feito por alunos da Universidade da Beira Interior sobre a diminuta visibilidade das mulheres arquitetas na História da Arquitetura. Durante a noite, alguém decidiu vandalizá-lo, destruindo-o a murro e a pisadelas. Sim, em pleno átrio de uma universidade nacional. Diz quem por lá trabalha e estuda que nunca tal coisa foi vista. Será que a motivação foi o tema da exposição? Ou foi só por acaso?

Antes de mais, vamos começar por perceber que mostra era esta. Intitulada “Exposição Arquitectas XIX-XX”, e elaborada no Mestrado Integrado em Arquitetura do Departamento Engenharia Civil e Arquitetura da UBI, o objetivo do trabalho era claro: refletir sobre o facto de “a visibilidade das mulheres arquitetas, no contexto da História da Arquitetura consolidada, ser diminuta e não fazer justiça à sua presença efetiva e real no fazer cidade e arquitetura. Deste modo, foi objectivo durante um semestre trabalhar parte de quem não tem direito a estar nos livros de história, ou seja, as arquitetas que nos últimos dois séculos foram reforçando e ampliando o modo de fazer, pensar e questionar a arquitetura”. A organização esteve ao cargo de Patrícia Santos Pedrosa, que não só é docente da UBI, como é uma das fundadoras da associação Mulheres na Arquitectura, que tem desenvolvido um trabalho exemplar no âmbito da equidade de género naquela área.

Numa noite de sexta-feira, a escola foi encerrada, como de costume. Na manhã de sábado, a exposição estava vandalizada, e basta olhar para as imagens para perceber quão deliberado e violento foi o ato. Podemos até querer tapar o sol com a peneira e pensar que se tratou de um incidente, mas mais uma vez basta olhar para as imagens e percebemos que não. Quem o fez, fez nitidamente com vontade de estragar. De violentar um trabalho alheio, trabalho esse cujo tema ia ao encontro da importância da visibilidade e meritocracia feminina numa área profissional ainda tão masculinizada. Foi por acaso? Não sei, ainda ninguém sabe, mas a verdade é que tal ato nunca foi visto na UBI, em tantos outros trabalhos expostos naquele mesmo átrio ao longo dos anos.

Até agora não se sabe quem foi o responsável pela destruição da exposição. Não se sabe se foram alunos, professores ou outros funcionários da UBI. Aliás, nem se sabe se foi sequer alguém ligado à UBI. Nem o cerne da questão é esse, porque quem quer que o tenha feito será a excepção e não a regra. Aliás, reforço aqui a mensagem que o gabinete de Relações Públicas da universidade teve a gentileza de me passar, até para que não surjam mal-entendidos: “A UBI está consciente da importância dos temas de género, que se traduz no facto de ter sido a primeira Universidade portuguesa a ter um Plano de Igualdade de Género, além de dinamizar iniciativas e estudos sobre o tema e colaborar com entidades externas que trabalham esta matéria. (...) Esta situação é de lamentar, mas pelo comportamento global dos estudantes da UBI, acreditamos que não terá sido um ato intencional de destruição, dirigido aos objetos, conteúdo ou mensagem da exposição”. Contudo, em tantos anos de trabalhos expostos naquele mesmo átrio, foi este – com enfoque na injustiça histórica da visibilidade e meritocracia profissional feminina – que foi destruída a murro e pontapé. Volto a perguntar: foi por acaso?

Igualdade: a importância de normalizar esta discussão em vez de a diabolizarmos

Interessa apurar quem foi ou foram os/as responsáveis pelo ato, não por uma questão de se colocar uma cabeça no cepo, mas para se conseguir perceber as motivações de tal violência, direcionada e altamente simbólica. Sendo os estabelecimentos de ensino os supostos berços do conhecimento e da educação, locais de incentivo ao livre pensamento, à tolerância e à partilha, e alavancas chave da evolução da sociedade, é preocupante ver isto a acontecer dentro das portas de uma universidade. Independentemente do/a autor/a do ato de vandalismo, nele estão implícitas múltiplas formas de desrespeito que deveriam dar que pensar, desde a falta de respeito pelo trabalho dos demais que o produziram, ao desrespeito pelos docentes que acompanharam a produção do mesmo, pelo estabelecimento de ensino que o expõe, pelo espaço partilhado, pelo tema que é abordado. Nada disto é aceitável e vem reforçar a necessidade urgente de se colocar a paridade entre homens e mulheres – que não é mais do que ato de respeito - em cima da mesa. Trazê-la para o debate público, normalizá-la em vez de a diabolizarmos, fazer dela uma prioridade que nos diz respeito a todos enquanto cidadãos de uma sociedade que se quer par em direitos, deveres, oportunidades, dignidade e respeito.

Gostava de dizer o contrário, mas não sei até que ponto este episódio da UBI aconteceu por acaso. O vandalismo e a agressão como forma de silenciar, intimidar ou menosprezar mensagens que apelam à igualdade de género têm sido até bastante comuns (lembram-se, por exemplo, das fotos grosseiras tiradas com a estátua da Rapariga Sem Medo em Wall Street?). Aliás, quanto mais se agitam as águas, mais o lodo vem à tona. Basta andarmos a ler as discussões sobre estes temas, por exemplo, para percebermos que a agressão continua a ser o último reduto quando faltam argumento válidos que contraponham tudo o que as estatísticas e demais análise de quem se debruça nestas matérias indica: a equidade entre homens e mulheres está longe de ser real.

Dos inconformados aos desinformados, dos que sentem que o seu lugar de privilégio está em risco aos que repudiam a igualdade, como se esta fosse uma praga indesejada que tem por motivação aniquilar os homens (que erro tão grande!), são muitas as pessoas que preferem a estagnação e os poderes instituídos de um mundo desigual e estereotipado do que o equilíbrio da paridade que, obviamente, só poderá ser alcançada com mexidas das peças no tabuleiro. Como relembrava alguém em resposta a estas imagens, aqui ficam as palavras do poeta brasileiro Paulo César Pinheiro: “você corta um verso eu escrevo outro”. O caminho da igualdade ainda passa por aqui.