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Expresso

O Montijo é uma má solução: vamos a ela?

Portela mais o que quer que fosse – Montijo, Alverca, Sintra, até havia quem alvitrasse Beja – nunca seria uma solução boa para o problema, em tempos objeto de acesa discussão, hoje largamente pacífico, de que Lisboa não tem, hoje, um aeroporto capaz de dar resposta às necessidade do país e da região.

Em abril do ano passado, escrevi por aqui que o Montijo é uma má solução.

É uma má solução ambiental. É uma má solução aeronáutica. É uma má solução para a mobilidade da Grande Lisboa porque vai pôr milhares de carros e autocarros nas estradas e em eixos sobrecarregados, cria novas zonas de ruído em meio urbano, e, aposto já aqui, é uma solução que não dura nem 20 anos.

É curto para um “novo” aeroporto. Como já aqui escrevi, “é certo que o país anda a discutir o assunto Aeroporto de Lisboa há décadas. Mas também é verdade que a solução Montijo nunca teve este protagonismo. Estudámos a Ota, Rio Frio, Alcochete. Estudámos tudo menos o que vamos fazer? Isso não tem ponta por onde se lhe pegue.” Seguiu-se o apelo, talvez um nadinha otimista: “Podemos, seguramente, esperar mais uns meses e fazer as coisas bem feitas.”.

Os meses vieram. O resto não. A Vinci, dona da ANA e acionista com 37,3% da Lusoponte (mas já sabemos que sobre isso a nossa imprensa não fala), vai ficar com mais um aeroporto por meros mil milhões, e ganha mais uns muitos milhões ano em portagens ali ao lado. Deve dar para pagar três vezes ou quatro as obras. O costume, portanto. Má solução? Para os franceses não. A discussão pública, aberta, franca, ou o que por ela passou já lá vai e ficamos na mesma. Montijo, pois claro.

Vamos fingir que o Montijo não é, atualmente, a mais importante base da Força Aérea na zona de Lisboa, e o coração da componente aérea do nosso sistema de busca e salvamento? Vamos fingir que não vemos que com duas pistas, só uma das quais interessa para o que pretendem militares e civis, a corda vai partir para o lado dos mais fracos? Aparentemente, vamos.

Antes uma má decisão que nenhuma, dizem-me. Uso a Portela 20 ou 30 vezes por ano. Não preciso que me expliquem. Eu sei, e sinto nos meus ossos doridos de estar sentado no chão do terminal, que alguma coisa temos de fazer. Só não me convencem que seja preciso ir para o Montijo e, ainda por cima, dar o Montijo à ANA/Vinci até 2062 em troca de um investimento de mil milhões de euros.

Eu sei que o anterior Governo lhe entregou 10 aeroportos do país por três mil milhões mas, quer dizer, até por isso: não chega já? Não há um nadinha de vergonha? Não há. Conhecemos demasiado bem esta história: é por causa dela, e de tantas outras iguais que, dizem-nos, não se pode aumentar pensões. Ou baixar o IVA da eletricidade. Ou outra coisa qualquer que não fosse dar mais aos que já tanto têm. Não se pode? Mas isto, isto é perfeitamente natural. Meus caros amigos, vão gozar com outro. Aquele abraço.