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Expresso

Como os monopólios nos roubam (também) no salário

Está na altura de tirarmos os problemas de concorrência da microeconomia porque, num sistema binário (e errado), foi lá que foram enfiados e compreender que eles têm importantes implicações para o funcionamento geral da Economia, isto é, para a macroeconomia.

E está na altura de compreendermos que o poder de mercado destes monopolistas ou quase monopolistas tem reflexos nos preços – e tem – mas também tem reflexos no que estas empresas pagam pelos fatores de produção.

Desde logo, pelo trabalho.

Uma das mais interessantes e promissoras explicações para o facto de que os ganhos de produtividade têm ficado retidos na remuneração do capital e não chegam – e não chegam mesmo – aos salários é mesmo esta: empresas demasiado poderosas, respaldadas por “reformas estruturais” do mercado de trabalho que são sempre, na prática, formas de desequilibrar mais ainda a relação entre empresas grandes e poderosas e trabalhadores mais ou menos indiferenciados e isolados.

Fragmentados pela perda de relevo dos sindicatos (que se têm mostrado tragicamente incapazes de se adaptarem ao século XXI), o poder negocial dos trabalhadores praticamente desapareceu.

A liberdade de movimentos do capital contrastada com a pouca mobilidade dos trabalhadores significa sempre que se pode mudar o lugar de aplicação do capital se os trabalhadores exigirem maiores salários. Algures no mundo haverá sempre um local onde alguém está disposto a trabalhar por menos.

Simultaneamente os encargos com o funcionamento das sociedades – de que as empresas beneficiam – são cada vez menos financiados com impostos sobre os lucros e cada vez mais onerados com impostos sobre os salários – ou sobre o consumo, que é financiado com esses mesmos salários.

As nossas autoridades de defesa da concorrência estão completamente incapazes de intervir neste assunto: não têm a cultura, os recursos ou, sejamos honestos, a vocação de se verem como parte do equilíbrio entre as empresas e os cidadãos como trabalhadores; veem apenas o impacto do poder de mercado nos preços pagos pelos consumidores.

Aliás, poucas pessoas, mesmo as que defendem que os salários resultam da lei da oferta e da procura estão dispostas a reconhecer que, se isso é verdade (e é, embora com muitas especificidades), então também é verdade que a existência de poder de mercado desequilibra o mecanismo de fixação do preço do trabalho: o salário.

O seu salário não aumenta, e uma das razões disso é a ganância dos seus patrões. Qualquer trabalhador sabe isto bem, cabe agora começar a perceber como é que isso se processa e, se não for muito incómodo, adotar medidas para começar a corrigir a situação.