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Vida na Terra

Um tuaregue entre o relógio e o tempo

Alexandre Coutinho

Moussa Ag Assarid veio do deserto com uma mensagem de solidariedade dos tuaregues para os povos ocidentais. "Nasci pastor nómada (entre 1975 e 1978), de pais tuaregues, no Norte do Mali, entre Tombouctou e Gao, a areia nos olhos e a olhar para as estrelas. Só fui à escola por volta dos meus 13/14 anos", revela. 

Após completar a escolaridade básica em Ansongo, tira o bacharelato na capital do Mali, Bamako e prossegue os seus estudos em França, onde chega em Agosto de 1999. Primeiro, na Universidade de Angers (em razão da geminação de Angers com Bamako) e depois na Universidade de Montpellier, onde cursa Gestão. 

Hoje é escritor, jornalista, contador de estórias e actor. O seu primeiro livro - "Não há engarrafamentos no deserto!" - foi lançado em França (40 mil exemplares), em 2006, seguido por um segundo, em 2008 - "Crianças das Areias" -, em co-autoria com o seu irmão Ibrahim. Estão traduzidos em Castelhano, Italiano, Coreano, Árabe e Catalão. "Actualmente, estou a escrever um terceiro livro com a minha amiga Nathalie Valema Gil sobre a Caravana do Coração, da qual sou fundador", revela no seu blogue (http://moussa-blog.azawadunion.com).  

A Caravana do Coração (www.caravaneducoeur.com) é uma associação de vocação humanitária em prol dos tuaregues. Rege-se por quatro objectivos: médico - criar uma visita médica trimestral aos acampamentos nómadas e melhorar as condições das evacuações de urgência para o hospital; educativo - transporte de crianças dos acampamentos às escolas e dotá-las de brinquedos educativos; social - criar laços entre os pastores nómadas e os agricultores sedentários; e cultural - promover a descoberta da cultura tuaregue e contribuir para o reconhecimento deste povo.  

Há três anos, Moussa Ag Assarid deu uma entrevista ao jornalista catalão Victor Amela, publicada no dia 1 de Fevereiro de 2007, na secção "La Contra de La Vanguardia", no mesmo jornal. Vale a pena recordá-la, pela extraordinária simplicidade das respostas, embora carregadas de um profundo significado de quem vê a vida com outros olhos. Eis o conteúdo da referida entrevista:



- Que turbante tão bonito!



- É uma fina tela de algodão. Permite proteger o rosto no deserto quando se levanta areia, e seguir em frente, vendo e respirando através dele. É de um azul belíssimo... Aos tuaregues nos chamam os 'homens azuis' por isto: a tela solta cor e a nossa pele fica em tons azulados...



- Como elaboram este intenso azul anil?



- Com uma planta chamada índigo, misturada com outros pigmentos naturais. O azul, para os tuaregues, é a cor do mundo.



- Porquê?



- É a cor dominante do céu, do tecto das nossas casas.



- Quem são os tuaregues?



- Tuaregues significa "abandonados", porque somos um velho povo nómada do deserto, solitário, orgulhoso. Chamam-nos "Senhores do Deserto". A nossa etnia é a amazigh (berbere) e o nosso alfabeto, o tifinagh.



- Quantos são?



- Uns três milhões, e a maioria, todavia, é nómada. Porém a população decresce... " É preciso que um povo desapareça para que saibamos que existia", denunciava uma vez um sábio. Eu luto para preservar este povo.



- A que se dedicam?



- Pastoreamos rebanhos de camelos, cabras, ovelhas, vacas e jumentos num reino de infinito e de silêncio...



- De verdade, tão silencioso é o deserto?



- Sim. Estás a sós naquele silêncio, ouves as batidas do teu próprio coração. Não há melhor lugar para estares sozinho.



- Que recordações da tua infância no deserto conservas com maior nitidez?



- O meu despertar com o sol. Ali estavam as cabras do meu pai. Elas nos dão leite e carne, nós as levamos onde há água e pastagem... Assim fez meu bisavô, e meu avô, e meu pai... E eu. Não havia outra coisa a mais no mundo do que isso. E eu era muito feliz nele!



- Sim! Não parece muito estimulante...



- Muito. Aos sete anos já te deixam longe do acampamento, para o que te ensinam as coisas importantes: a farejar o ar, escutar, apurar a vista, orientar-se pelo sol e pelas estrelas... E a deixar-se levar pelo camelo, se te perdes, ele levar-te-á onde há água. Saber isso é valioso, sem dúvida... Ali tudo é simples e profundo. Há poucas coisas, e cada uma tem um enorme valor!



- Então este mundo e aquele são muito diferentes?



- Ali, cada pequena coisa proporciona felicidade. Cada roçar é valioso. Sentimos uma enorme alegria pelo simples fato de nos tocarmos, de estar juntos! Ali nada sonha em chegar a ser, porque cada um já o é!



- O que mais te chocou na tua primeira viagem à Europa?



- Vi correr as pessoas pelo aeroporto. No deserto só se corre se vem uma tempestade de areia! Assustei-me, claro...



- Só iam buscar as malas...



- Sim, era isso. Também vi cartazes de mulheres nuas. Porquê essa falta de respeito com as mulheres? Perguntei a mim mesmo. Depois, no hotel Ibis, vi a primeira torneira da minha vida. Vi correr a água... e senti vontade de chorar...



- Que abundância, que desperdício, não?



- Todos os dias da minha vida consistiam em procurar água! Quando vejo as fontes ornamentais aqui e acolá continuo a sentir dentro de mim uma dor tão imensa....



- Tanto assim?



- Sim. No princípio dos anos 90 houve uma grande seca, morreram os animais, caímos enfermos... Eu tinha uns doze anos, e minha mãe morreu. Ela era tudo para mim! Contava-me estórias e ensinou-me a contá-las bem. Ensinou-me a ser eu mesmo.



- Que aconteceu com a tua família?



- Convenci o meu pai para que me deixasse ir à escola. Quase todos os dias eu caminhava 15 quilómetros. Até que o professor me deixou uma cama para dormir, e uma senhora me dava de comer ao passar pela sua casa. Entendi: era a minha mãe que estava a ajudar-me...



- De onde saiu essa paixão pela escola?



- Dois anos antes, tinha passado pelo acampamento o rali Paris-Dakar e uma jornalista deixou cair um livro de sua mochila. Recolhi-o e dei-lhe. Ela ofereceu-mo e falou-me daquele livro: O Pequeno Príncipe. E eu prometi a mim mesmo que, um dia, seria capaz de lê-lo...



- E logrou-o...



- Sim. E foi assim que ganhei uma bolsa para estudar em França.



- Um tuaregue na universidade!



- Ah, o que mais me falta aqui é o leite de camela... E o fogo a lenha. E caminhar descalço sobre a areia quente. E as estrelas. Lá, olhamos para elas todas as noites, e cada estrela é distinta da outra, como é distinta cada cabra... Aqui, à noite, olhas para a televisão.



- Sim... O que pior que lhe parece aqui?



- Têm tudo, porém não basta. Queixai-vos. Em França, passam a vida a queixar-se! Aprisionai-vos por toda a vida aos bancos, e há ânsia de possuir, frenesi, pressa... No deserto não há atrasos, e sabe porquê? Porque ali nada se quer adiantar a nada.



- Conta-me um momento de felicidade intensa num deserto distante.



- Todos os dias, duas horas antes do pôr do sol: diminui o calor, e o frio não chegou ainda, homens e animais regressam lentamente ao acampamento e os seus perfis recortam-se no céu rosa, azul, roxo, amarelo, verde...



- Fascinante, na verdade...



- É um momento mágico... Entramos todos na tenda e pomos o chá no fogo. Sentados, em silêncio, escutamos a fervura... A calma nos invade a todos. As batidas do coração entram no compasso, no 'pot-pot' do fervor...



- Que paz...



- Aqui tens o relógio, ali temos o tempo.