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Vida na Terra

Colaterais da Grande Recessão no Silicon Valley

Quatro postalitos da Bay Area de São Francisco - um estado falido, os desempregados e sem abrigo de bicicleta, os centros fantasma de pequenas cidades e o indicador dos parques de estacionamento.

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

A Bay Area de São Francisco, na Califórnia, inclui um dos ícones da América - o Silicon Valley. Mas não é de tecnologia - nem a cinzenta, nem a "verde" - que estes breves postalitos (não ilustrados) falam. São apontamentos sobre "colaterais" da Grande Recessão neste estado da federação americana.

Se a Califórnia erguesse a sua bandeira republicana - com um imponente urso! - como estandarte independente seria a oitava economia do mundo. O que aqui se passa é uma imagem da América.

Broken State

O primeiro choque que um português sofre quando aqui chega, vindo de semanas de disparo do risco de bancarrota em Lisboa e noutras capitais dos famosos PIIGS europeus, é dar com uma parangona mais forte ainda do que os gadgets de silício e da clean tech (energias limpas, a moda industrial mais forte): "Broken State" - um estado falido.

Pois é, a oitava economia do mundo, o berço da mais recente revolução tecnológica, o paraíso dos clusters em torno do silício e das energias "verdes", o caso mundial de estudo do empreendedorismo anda há anos às voltas com este problema de que, agora, começámos a ter mais consciência no nosso país.

Aliás, a Califórnia, nesta última semana, na medida em que saímos nós, reentrou no top 10 das economias consideradas com o mais alto risco de default (incumprimento) da dívida soberana. Aparece, agora, em 8º lugar, acima da região italiana da Sicília (uma espécie de "bota" arrancada ao resto da Itália em termos de risco de bancarrota).

O Estado do urso e do silício - em tempos, da corrida ao ouro - vai a eleições para governador este ano. Na corrida para substituir Arnold, The Terminator, em Janeiro do próximo ano, prefiguram-se vinte e três (sim, 23) candidatos nas primárias já em Junho. Duas são conhecidas nos meios do silício, Meg Whitman e Carly Fiorina. Mais conhecidas, certamente, pela sua carreira profissional do que pelas suas posições políticas republicanas, em alguns casos bem conservadoras. Meg foi presidente e CEO da eBay, onde arrecadou uma fortuna que lhe permite, agora, gastar 4 dólares por segundo na sua campanha, e Carly foi despedida de CEO da Hewlett-Packard em 2005 no meio de grande polémica.

Byke-homeless e byke-jobless

Os sem abrigo são um dos postais mais conhecidos de São Francisco, para quem calcorreie a Market Street e os encontre a pedir "trocos" em sítios estratégicos.

Mas, este ano, há novos grupos, já me tinha avisado o Kevin Thomas, o director de vendas do simpático hotel Mark Twain. O aspecto distintivo é a bicicleta.

Há jovens, homens e mulheres, sem abrigo nas ruas, em que o principal activo de vida actual não é o carrinho de compras carregado das mais diversas coisas e o cão ou cadela como companheiros, mas uma mochila "urbana" (o hoje famoso backpack) e uma bicicleta. São os byke-homeless.

Mas há outra variedade entre a antiga classe média. Os que usam a bicicleta para procurar o emprego que já não têm há imenso tempo. Usam as pernas como combustível - a única possibilidade, pois, também eles, muitas vezes, encostam a bicicleta à parede, e pedem "trocos" à saída de um Starbucks ou de um dos bares mais chiques que se enchem ao final do dia com os quadros que ainda têm emprego. São os byke-jobless.

Downtown...down

Esta grande crise agravou a situação de cidades a duas ou três velocidades. Mesmo cidades simpáticas, pequenas, que haviam escapado a anteriores recessões, são hoje um espelho paradoxal.

A parte central da cidade - o downtown - é hoje quase fantasma. Escapam os grandes edifícios municipais, onde se agitam pessoas em seu redor e se vêm carros estacionados nos parques de estacionamento. Mas o resto está com os letreiros de "para venda" ou "aluguer" - lojas, escritórios, restaurantes, antigos antiquários. Não é porta-sim, porta-não, é em quase todas as portas.

Até o cine-teatro - um edifício característico do início do século XX, com uma plateia imponente, redecorado de um modo deslumbrante, um "tesouro", apropriadamente designado por "Imperatriz" - teve de recorrer a novas estratégias de aluguer para eventos para sobreviver. No placard, para este mês, estava a passagem de um filme (sobre o activista Harvey Milk) e um coral; dois dias ocupados.

Vallejo, a capital do mercado do agrobusiness aos sábados da região vitivinícola de Napa e Sonoma, é um exemplo deste downtown down. Um dos estaleiros navais da baía - ainda hoje celebrizado num gigantesco mural - é agora um paradoxo: nas margens do estreito o que há são marinas com alguns iates para venda e campos de golfe semi-vazios. O terminal dos ferries que fazem a ligação a São Francisco tem carros nos parques de estacionamento, gente que vai trabalhar à metrópole urbana. Mas não estão cheios.

O centro da cidade está quase fantasma. A vida existe nas zonas de habitação da classe média alta, distribuída pelas características vivendas em que cada família cuida de si e do que resta dos seus símbolos de status e nas infra-estruturas de entretenimento nos arredores, que têm um marketing fortíssimo, mas cujo uso não pude confirmar.

Parking lots

Kevin tinha-me dado um indicador não convencional para medir o estado da economia do Silicon Valley e da Bay Area: o grau de ocupação dos parques de estacionamento em duas localizações estratégicas - junto das ligações intermodais e nos parques industriais.

Quem percorre a célebre via rápida 101 (pronunciar one-oh-one), que corta o Silicon Valley ao longo de mais de 100 quilómetros, e olha pela janela, do alto, para os parques industriais pode dar-se ao trabalho de ir mapeando onde os parking lots (parques de estacionamento) estão cheios, meio cheios, ou quase vazios. Aqui não há hipótese de aplicar a "lei" do copo meio cheio ou meio vazio. Não é um problema de observação, pessimista ou optimista.

Nas ligações multimodais, particularmente, junto da ligação rápida de metro, o BART, e dos terminais de ferries (que ligam vários pontos da Baía), o mesmo exercício pode ser feito.

São Francisco, Maio 2010