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Expresso

Todos bons rapazes

A sociedade portuguesa continua a surpreender pela sua grande capacidade de inovar, modernizando o histórico conceito nacional de improviso como modo de vida, o que aliado ao não menos português conceito de “nacional porreirismo”, demonstra elevados e preocupantes níveis de descontrolo social.

A mirabolante história do assalto de Tancos é um bom exemplo do nível de informalidade que tem passado da sociedade para as organizações, pondo em causa o normal funcionamento das instituições.

Todos já sabiam que a explicação do ridículo assalto não podia apenas ser justificado pela real incapacidade das forças de segurança de garantirem a proteção de armas de guerra numa qualquer instalação militar.

A única parte engraçada terá sido assistir à tentativa de justificar o injustificável por parte dos políticos e dos responsáveis aos vários níveis, tendo estes apenas sido capazes de justificar a existência de uma cadeia de comando fiel a si mesma.

Tudo isto antes da atabalhoada descoberta do material militar roubado, acrescido de um bónus de material extra, como prémio de bom comportamento pela hilariante prestação de todos os responsáveis.

Despois disto, tudo era expectável que viesse a acontecer no decorrer das investigações, tendo mais uma vez a realidade ultrapassado a mais fértil imaginação, tal como agora se veio a descobrir em mais um episódio deste fantástico enredo ficcional.

No mínimo, o assustador facilitismo com que relações de amizade se sobrepõem à responsabilidade inerente a funções profissionais de relevo e de serviço público, deixa antever o pior no relacionamento entre a sociedade civil.

Ainda se fosse apenas corrupção, para a qual Portugal despertou apenas há pouco tempo, poderia obter vantagem na comparação com comportamentos desviantes de outros titulares de cargos públicos, causadores de maior transtorno para a sociedade.

Num país onde os crimes passionais imperam, e continuam a chocar pela sua crescente crueldade e total ausência de valores, o assalto de Tancos é apenas mais um fiel retrato das relações sociais criadas e fortalecidas contra um Estado imaginário que sendo de todos, não é de ninguém.

A coisa pública é cada vez menos a causa pública, num país em que quem acorda às seis horas da manhã para ir trabalhar e ganhar o ordenado mínimo acha que quem vive dos apoios do Estado é que é um herói.

A paródia de Tancos é assim um hino à paródia nacional que é hoje em dia a relação da sociedade civil e militar com o Estado. E depois admiram-se de o Estado falhar na sua mais elementar função de proteger os cidadãos. Esquecendo-se que a culpa é dos cidadãos…