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Expresso

Os reguladores da crise. Qual crise?

A crise financeira mundial de 2008 parece já estar longe o suficiente para não assombrar a economia global no presente, dando a confiança suficiente para alguns acreditarem que desta vez o futuro será diferente.

No seguimento da crise de 2008, nem todos os sectores de atividade económica foram negativamente afetados, tendo até existido um sector que registou um forte crescimento a nível mundial.

A atividade literária de ex-governadores de bancos centrais e de ex-ministros das finanças ganhou forte significado desde 2008, procurando cada um dar o seu contributo para a explicação da crise e as suas recomendações para o futuro, monetizando a sua experiência e as suas memórias. Em tempo de crise.

Os livros publicados pelo ex-governador do Banco Central de Inglaterra Mervyn King, pelos ex-governadores da Reserva Federal Americana Ben Bernanke e Alan Greenspan e pelo ex-ministro das finanças dos EUA entre 2006-09 Hank Paulson, são referências históricas fundamentais.

No entanto, convém não esquecer que tanto a Reserva Federal Americana (FED) como o Banco Central Europeu (BCE) foram apanhados estrondosamente de surpresa pela falência do banco Lehman Brothers, que levou à maior recessão económica global no período pós-guerra.

A política monetária dos reguladores financeiros, focada na gestão das taxas de juro para controlar a taxa de inflação, na sua relação com o desemprego e evolução salarial, veio demonstrar em 2008 que a estabilidade de preços não é suficiente para assegurar a estabilidade financeira.

A criação de moeda pelos bancos centrais para inundar o mercado com liquidez foi decisiva para que a grande recessão não se tornasse numa grande depressão económica mundial, mas a julgar pelas decisões recentes da FED e do BCE em restringir os estímulos da sua política monetária, ambos se arriscam a ser novamente surpreendidos.

Todos parecem deslumbrados com a recuperação económica e com o nível de inflação atingido, que finalmente justifica o aumento das taxas de juro, ignorando a quebra da confiança dos investidores europeus provocada pela eminente guerra comercial com os EUA.

O BCE tenta ignorar a situação política e económica explosiva de Itália a quem continua a comprar €3,5bi de dívida por mês, terceira maior economia da zona euro com a terceira maior dívida pública do mundo, que poderá provocar uma nova crise de dívida na Europa e que já registou no mês passado um aumento significativo da taxa implícita da sua dívida e um aumento da fuga de capitais de Itália.

Por seu lado, a FED ignora o outlook negativo de vários mercados emergentes como a Argentina, Turquia, Brasil, México e África do Sul, sob forte pressão cambial que poderá pôr em causa a sua recuperação económica, principalmente sabendo que estes países terão eleições neste e no próximo ano.

A decisão de ambos os reguladores dos EUA e da Europa visa assim cumprir mais uma vez os seus objetivos domésticos de política económica e monetária, esquecendo um dos principais ensinamentos da crise de 2008… que na moderna aldeia global nenhuma economia é independente das outras. E que desta vez não será diferente.