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Expresso

Sempre de menos, sempre tarde demais

Nas décadas que antecederam a criação da moeda única, as economias periféricas europeias sustentaram o seu processo de convergência relativamente às economias mais avançadas em parte no deslizamento das suas paridades cambiais. O marco alemão trocava-se por cerca de vinte dracmas gregos em 1981, mas por mais de 170 em 2001. Valia perto de 20 escudos em 1980 mas cerca de 100 em 2001. E correspondia a cerca de cerca de 500 liras italianas em 1980 mas perto de 1000 em 2001. Nos dias que correm, é útil recordar que a Itália, independentemente do seu significativo dualismo interno, fez e faz parte em termos médios deste clube de economias com estruturas produtivas relativamente menos robustas.

A depreciação cambial não era uma ‘batota’ a que todos recorriam, um mecanismo de obtenção de competitividade artificial à custa da perda de poder de compra, mas um mecanismo essencial para permitir a convergência real das economias mais fracas sem acumulação de desequilíbrios externos. Na ausência deste mecanismo, a possibilidade de convergência sem desequilíbrio externo não desapareceu, mas passou a depender de uma combinação suficiente de mecanismos compensatórios: uma taxa de câmbio face ao exterior da zona euro não excessivamente apreciada; uma política orçamental expansiva por parte das economias centrais; e transferências orçamentais significativas no interior da zona euro.

Se a primeira destas três condições até se tem verificado por vezes, nomeadamente nos últimos anos, as duas últimas estão longe de se concretizarem. E a visão minimalista para a reforma da zona euro delineada por Angela Merkel nos últimos dias mostra a dimensão do bloqueio político. A par da recorrente intenção de reforço dos mecanismos disciplinadores, a novidade admitida por Merkel foi uma linha de financiamento europeia de apoio ao investimento e convergência na ordem de ‘poucas dezenas de milhares de milhões de euros’, cuja insignificância macroeconómica se torna mais evidente quando temos em conta que 10 mil milhões de Euros não chegam a 0,1% do PIB da zona euro.

Mesmo em face dos ventos de desagregação vindos de Itália, os líderes europeus permanecem firmes na estratégia de fazer de menos, tarde demais. Não se compreende nada do terramoto político italiano sem ter em conta que o PIB real per capita de Itália se encontra estagnado desde a introdução do euro – duas décadas sem melhoria do nível de vida. A maioria dos italianos continua a pretender ficar na moeda única, mas uma maioria ainda maior deseja prosperidade, e o problema é a incompatibilidade fundamental entre as duas coisas, que a extrema-direita italiana, como a de diversos outros países, tem vindo a explorar habilmente. No projecto europeu, o sono da razão continua a produzir monstros.