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Ciclo económico vs ciclo político

A política e a economia andam de braços dados, numa simbiose nem sempre benéfica. Essa conclusão não permite, porém, estabelecer que a economia depende da política, ou que a política manda na economia. Quer dizer, depende da perspectiva.

Vem esta relação singular a propósito da recente intenção do actual Governo de aumentar em 2,9% a Função Pública. Se é legítimo? Claro que sim. E é até natural. O aumento dos salários é algo urgente e justo. Totalmente aceitável. Todavia, também é legítimo a leitura desta medida como, dada a sua proximidade e efeitos em ano de eleições, totalmente eleitoralista. Porquê? Porque estamos no último ano antes deste inusitado Governo encerrar. Porque estamos perante o último Orçamento do Estado deste Governo. E porque já só estamos a pensar em eleições legislativas, que se lixem as eleições não colhe em quem, neste momento, governa.

Este é o ponto. E este é, sem dúvida, o prejuízo potencial. Quando se governa só a pensar em eleições, muitos elementos importantes, sobretudo os pontos mais impopulares, ficam em suspenso, aguardando momento mais oportuno. O ponto é transversal na nossa sociedade. Um ciclo económico completo carece de tempo. Normalmente, precisa de oito anos para que se sintam completamente as repercussões das medidas tomadas ou adiadas, na economia e na vida das pessoas. Como é sobejamente sabido, oito anos é uma eternidade em política, mormente na portuguesa, pouca dada a pensar estrategicamente o futuro da comunidade nacional e do país.

O último aumento, nos salários dos funcionários públicos, desta dimensão, foi nos idos de 2009/2010. Pois, que rico e memorável ano. Em pleno devaneio orçamental do fantástico Governo Sócrates, que nos facilitou o embalo contra a parede da crise e posterior ajustamento seguindo as directrizes dos credores internacionais, que nos emprestaram o dinheiro, quando o mercado financeiro internacional de dívida pública se fechou para a República Portuguesa.

Constatar estes paralelismos históricos é preocupante. Estamos ainda em boa época. Passámos a crise e estamos numa fase de aparente recuperação. Esta aparência pode ser fatal. E a ideia de que já ultrapassámos completamente as dificuldades pode levar a decisões pouco avisadas, porque não estão sustentadas na verdadeira realidade económica do país e não o preparam para as nuvens negras proteccionistas que se formam no comércio mundial.

Para perceber um pouco melhor como Portugal está, sugiro a leitura do artigo do Professor Daniel Bessa este fim-de-semana no caderno de Economia do Expresso. O tal tempo de bonança, aparentemente de vacas gordas, não nos pode desligar da realidade e das ameaças que se acumulam no horizonte.

Claro que para compensar a ideia de aumentos salariais para os trabalhadores, vem o outro lado da moeda, nomeadamente, os pedidos do PCP de aumento de impostos como IMI ou de mais tributos para quem mais recebe. Claro, o remédio de sempre. Impostos e mais impostos. E este é problema deste país, pensar em tributar o mesmo bolo de sempre, sem lutar por aumentar o tamanho do bolo a distribuir por todos. A falta de estabilidade fiscal é cada vez mais um autocolante que não larga o país.

A ideia revanchista de que quem tem mais ser diferente dos demais, como se ser rico, por meios legais e legítimos, fosse uma ofensa mortal para a sociedade portuguesa. Demora a chegar a maturidade que abandone a ideologia em prol do pragmatismo, que melhore a vida das pessoas, sem divisões entre bons e maus.

No final das contas, para quem governa, para que interessa tudo isto, quando há eleições para ganhar e uma oposição dócil e domesticada? A maioria absoluta vale mais, já a sustentabilidade das contas públicas e do futuro, de todos nós cidadãos e contribuintes, isso logo se vê.