Siga-nos

Perfil

Expresso

Falta uma agenda liberal

Estamos em pleno Verão. O calor aperta como nunca, os portugueses vão a banhos, e este ano, para lá das opções nacionais, registam-se muitas saídas feriais até destinos lá fora. É o mercado do turismo a funcionar. Lá está, o mercado a funcionar.

Todavia, nós por cá, vivemos um tempo estranho. Bem estranho, não só no plano meteorológico. De um lado, uma certa extrema-esquerda que marcou um tempo de farisaico moralismo, de discurso anti-capitalista sempre pronto a anunciar a ruína do país às mãos do “capitalismo transnacional” que domina e atrasa o desenvolvimento do país. Do outro, uma direita tímida em se assumir liberal, como defensora da livre iniciativa, mas sem derivas para o capitalismo selvagem. Com a vergonha e talvez alguma falta de massa crítica para gerar um discurso próprio, é assim a agenda política entregue à livre gestão de quem hoje governa. Então este ano de 2018 tem sido exasperante, pela falta de capacidade de puxar para o debate político, por exemplo, as clamorosas consequências da draconiana gestão de cativações.

Os sinais, os avanços e mudanças que se fazem sentir são também a razão desta ausência de opção no actual espectro político. Falta uma verdadeira agenda liberal capaz de gerar melhorias na vida das pessoas. Uma opção que nos dê a possibilidade de escolher um caminho que não seja contra o capitalismo. Uma agenda que não diabolize o lucro, as empresas e a propriedade privada. Mas que tenha uma ideia de qual é o papel Estado. Não na óptica à Bloco de Esquerda de atacar o Estado por este não ser o aglutinador e director de toda a actividade económica, mas vê-lo numa perspectiva reformista para, finalmente, com força e empenho definir o que cabe ao Estado fazer, porque é indispensável que o faça, seja pela necessidade de acesso universal, seja por manifesta falha de mercado.

Ser liberal não é, nem pode ser, ser contra o Estado. Ser liberal, confiar na economia de mercado, defender a livre concorrência, é respeitar o privado, assumindo o Estado o papel de regulador independente e atento, bem como cuidando de quem precisa.

Nos tempos de hoje a discussão devia ser quem precisa, como podemos diminuir o número de cidadãos que precisam, como podemos reintegrá-los como activos elementos da sociedade, ao invés de serem atirados para as margens da sociedade. Mas não. Apenas andamos em discussões estéreis, acordos de faz de conta e preocupações partidárias umbilicistas. Não é por aqui. Nem pode ser. Não se trata de quem são os protagonistas, não é uma questão de fulanização. O grande problema do país é mais profundo. É a falta de um projecto claro, transparente e exequível para o país. E sem projecto, podemos continuar neste rame-rame, mas não conseguiremos ser um país de futuro, não abandonaremos a pantanosa repetição dos mesmos erros do passado.

Não precisamos de olhar para muito longe, mal começa a haver uma nesga de crescimento, independentemente da sustentabilidade da dita, começam as movimentações para uma qualquer grande obra sem a qual o país não pode passar e os comissionistas do regime ainda menos. Para isto contribui a opacidade do processo de decisão público, sem participação da sociedade civil e sem responsabilização objectiva de quem hipoteca o futuro do país a troca de favores, comissões e rendimentos.

E depois admiramo-nos com as ondas populistas? Como não se não existem políticos a cuidar do essencial, mas sim de querelas laterais?

O tempo está para ideologias sim. Não falsas ou demagógicas, mas ideologias sinceras, sem complexos e sem receios. Falta quem nos diga que tem um projecto liberal para este país carente de liderança que, nesta fase, implica sobretudo bom senso, transparência e humanismo.