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Expresso

Em defesa do lucro

A semana passada escrevi, aqui nesta coluna, contra a legislação que, mais do que regular, bloqueia o alojamento local. Nem de propósito, esta sexta-feira rebentou o caso imobiliário Robles. E que caso. De legal? Do que se sabe até agora, nada de mal ou de ilegal. Aliás, é de se tirar o chapéu esta capacidade de captar a onda de subida de preços do imobiliário e surfá-la do começo, subindo a valorização potencial. Um negócio que, nos termos em que sabemos ter sido feito, deve ser elogiado. Adquiriu edificado em péssimo estado, recuperou, voltou a colocar no mercado. Na busca do lucro. Claro que sim. E bem. Já dizia Adam Smith, em A Riqueza das Nações, que não é da benevolência do talhante, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas do seu respeito pelo seu próprio interesse.

Todavia, se legalmente está tudo certo, no campo da política o caso deixa muito a desejar. Este caso é uma forma clara de colocar a nu um projecto político que mais não é do que pura hipocrisia, debaixo de uma fachada de moralidade. Claro que Ricardo Robles pode fazer os negócios que bem entender. Claro que pode pedir dinheiro emprestado ao banco, essas entidades privadas que têm sempre prioridade em relação ao serviço público, palavra de Catarina Martins, claro que pode chegar a acordo com os inquilinos, claro que depois de ter as devidas licenças, pode realizar a obra, pode e deve pedir o preço justo, de mercado, pelo seu imóvel. E isto está tudo certo. Mas "isto", da economia capitalista funcionar com o recurso ao crédito bancário, às licenças camarárias, a empresas de construção civil privadas, bem como a venda pela cotação de mercado é o habitual mecanismo da economia de mercado a funcionar. Sim, o terrível mercado que as senhoras e senhores do Bloco de Esquerda passam a vida a atacar e diabolizar. Sempre. Em cada discurso. Em cada debate. Em cada projecto lei que apresentam. O foco deles: matar o lucro, resta saber o de quem...

Neste caso, e não quero centrar-me no uso da questão pessoal, mas como exemplo, é elucidativo. Temos de forma clara exposta toda a falsa cartilha marxista, tal como vem sendo lida, pelos “puros e castos” intérpretes bloquistas, temos assim toda a prédica do Prof. Louçã, na sua “homilia” televisiva semanal, a cair por terra perante os comportamentos de “Frei” Robles. Neste caso, o correcto é "faz como ele fez e não como ele disse que faria".

Não gosto de falsos moralistas e de quem se considera moralmente superior a tudo e a todos. Nunca gostei de poses em alto pedestal de quem é tão falho e venal como o mais comum de nós humanos. Sim, todos falhamos. Existe, em Portugal, uma linha de um Partido extremista, o Bloco, que quando discursa tem a arrogância de a todos tratar como suspeitos de toda a ignomínia que no país aconteça, ou na sua ilustrada e superior cabeça pareça ter acontecido.

Atacam empresas, colocam a cara de gestores em cartazes. Não gostam do lucro, não gostam de riqueza e não gostam de especulação imobiliária. Abominam o sucesso, será que só o dos de fora do partido?

O Vereador Ricardo Robles prepara-se para fazer um tremendo negócio imobiliário. Pois claro que fez bem ter comprado barato, para depois vender caro, qualquer empresário português de sucesso elogiaria a estratégia. E ainda bem, para ele. Agora, o problema, grave, é do domínio do político, não do legal ou do económico. É que cada discurso que o Vereador Robles, como deputado municipal e como candidato à edilidade, fez a atacar quem compra imóveis para obter lucro, soa a oco, a fútil, pois está desacompanhado da respectiva praxis.

Dizia Karl Marx que o lucro era a parcela que não era paga ao assalariado. E tinha razão. É a parcela do investidor. E sem investimento não há assalariados. Felizmente Adam Smith colocou as coisas nos termos correctos.

Sim, ainda existe capitalismo em Portugal. E deve continuar a existir. Querem progresso? Querem investimento? Querem mais emprego? Querem inovação? Então defendam o lucro. Defendam as empresas. Defendam a iniciativa privada, sem ela não há crescimento, nem futuro.