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Expresso

A NATO, Trump e o populismo

A semana que passou foi de extrema importância. O que saiu da Cimeira da NATO é toda uma antecâmara de um novo modelo geopolítico, que importa perceber.

A figura da cimeira da NATO foi, de facto, o Presidente Donald Trump. O seu estilo, a sua imprevisibilidade e a sua difícil relação com os factos fazem os seus aliados perderem o rumo e as estratégias pré-estabelecidas. Porventura, dado o actual estado de coisas no mundo, era preciso um abanão na velha organização do pós-guerra. No entanto, este abanão pode não ser o mais adequado e tem um preço muito elevado.

Os resultados de uma cimeira da NATO surgem numa coluna de economia, porque, na sequência da suposta ameaça de Trump de retirar os EUA da Aliança Atlântica, mais ou menos confirmada, foram as consequências orçamentais, nomeadamente os miríficos 2% do PIB, para aplicar no orçamento da Defesa Nacional, a grande conclusão para os membros europeus da NATO. Já para o Presidente Trump o objectivo é mais além e pugnou pelos 4% do PIB para gastos com a Defesa.

Este ponto merece reflexão. Política, militar, mas também económica. Quer os 2%, que António Costa assumiu como meta lá para 2024, quer os 4% com que Trump desafiou os seus parceiros aliados.

Ora, dadas as consabidas dificuldades de que se padece, e falo de Portugal, não havendo dinheiro para tantas e fundamentais necessidades básicas, a começar pela saúde, pela educação e até pela sustentabilidade da segurança social, como podemos integrar, na difícil equação orçamental, este aumento de despesa em Defesa? Eu não estou a condenar, a vituperar o compromisso, a fazer demagogia. Estou a questionar, a pensar no futuro do país. Onde vamos cortar? Onde vamos retirar recursos para cumprir o compromisso? O crescimento não é perene e está a abrandar, a carga fiscal é aquilo que sentimos e o desempenho dos serviços públicos e o que vemos nas filas de espera onde, muitas vezes, se desespera.

A lista de necessidades do país é extensa. E, os números do crescimento económico de 2,2%, segundo a Comissão Europeia, não são miraculosos, sobretudo quando comparados com os restantes países europeus.

Estas inelutáveis escolhas difíceis carecem de respostas concretas, que não podem ser feitas de chofre, cativando a gosto. Não são histórias de ameaças fantasma. São respostas concretas, que se traduzem na política orçamental, mormente na rúbrica da despesa pública. Quanto custa? O que fica a faltar? Quais as externalidades e consequências de cortar num dado Ministério e não noutro? Estão por demonstrar as análises custo-benefício das cativações que vêm sendo feitas em nome das reversões e “devoluções” da geringonça. Sabemos que os recursos são escassos, mas a sindicância da sua aplicação está por fazer. Falta transparência na execução orçamental, os cidadãos têm de perceber de forma clara e evidente, sem terem de tirar um curso de Finanças Públicas, onde é gasto o dinheiro que lhes sai do bolso no IRS, no IVA das compras tal como no ISP na bomba de gasolina.

Vem isto, a transparência e o critério de decisão governamental, a propósito do crescimento de correntes populistas. Pois claro. O terreno é fértil, quando não existe transparência e clareza nas opções políticas. A ideia de que existem uns Chefes de Estado, uns políticos do sistema e do regime, que, em total sigilo, nas cimeiras intergovernamentais, escolhem caminhos e tomam decisões sem o apoio e o envolvimento dos seus cidadãos, é um terreno tão fértil para os extremismos, como os casos de corrupção. Mina o apoio. Degrada a credibilidade e a ligação entre eleitos e eleitores. Quebra o contrato social e os laços que unem a comunidade e que são base da polis.

Foi pelas brechas da democracia e do desespero dos eleitores que Trump entrou. Fulgurante e desafiante, contra aquilo que eram os supostos consensos históricos da política americana. Sem papas na língua, mas com um programa tão ou mais sombrio que os senhores de sempre. A propósito de Trump, fica a recomendação de leitura do livro do Professor Eduardo Paz Ferreira, “Os Anos Trump”, da editora Gradiva. Um ensaio que vale a pena ler, não se concordando com tudo, e depois partir para a reflexão. Onde muito do que se joga no plano da diplomacia e da economia se encontra.

Todavia fica o desafio. Como vamos fazer face ao aumento de despesa em matéria de Defesa? Sem esquecer que da indústria de defesa saiu a internet, bem como múltiplas invenções que fazem parte da nossa rotina diária. O investimento em defesa não é estanque, nem inútil, num mundo supostamente em paz, e pode ter importantes externalidades positivas para a sociedade civil veja-se o papel do Laboratório Militar na produção de medicamentos, que às farmacêuticas não interessam, mas fundamentais na vida de muitos portugueses.

Haja sapiência, transparência e discussão pública informada das escolhas vitais para o nosso futuro.