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Expresso

Em guerra comercial

Estamos, numa espécie de escalada reminiscente da guerra fria, a assistir a uma guerra comercial, com imposições unilaterais de subidas de tarifas alfandegárias, que nos vai custar caro. Muito caro, pois a instabilidade não serve à prosperidade de que todos nós precisamos. Os Estados Unidos da América com um “génio estável” à frente, apontaram para o proteccionismo e ao tão rentável, em termos de voto, America First, qual regresso ao passado isolacionista dos EUA.

Tivemos, na pretérita semana, um momento que foi histórico e marcante registado, para a posteridade, pela fotografia de Donald Trump e Kim Jong-un, mas a foto anterior, na cimeira do G7, foi reveladora do estalar do verniz entre a tradicional aliança ocidental, que foi forjada laboriosamente por americanos e europeus, desde do final da Segunda Guerra Mundial, pelo Plano Marshall, pela NATO e pela própria União Europeia.

Não podemos nunca esquecer que estamos no apogeu do instantâneo, do efémero. A rapidez da circulação da informação e a falta de tempo, para a consolidar e sistematizar, são características, da era das redes sociais e do domínio do digital, que nos estão a limitar o pensamento próprio, a sua clareza e racionalidade. Hoje, até o Facebook começa a cansar. O que conta é o momento, a reacção emocional imediata, e ver Trump sentado, impávido, qual dono da verdade, perante os outros líderes em pé e claramente fora de pé, é preocupante. Foi um erro comunicacional estratégico publicar esta foto e darem excessiva predominância a Trump. Para um mundo a assistir a casos e mais casos de populismo e de fraca capacidade de liderança, em sítios tão inesperados como os países mais industrializados, estamos conversados, sobre a bondade da ideia.

Seguindo a toada da corrente populista, que parece tomar a Europa placidamente através das urnas, em Itália os sinais são mesmo de nos deixar angustiados. Não bastava a recusa em receber um navio de uma ONG com refugiados, agora também se veiculam ameaças de não rectificação do tratado entre a União Europeia e o Canadá, o famoso CETA, um tratado de livre-comércio, que durou mais de 8 anos a ser negociado entre as partes. Não digo que o tratado seja perfeito, ou que não deva ser melhorado, mas rejeitá-lo em absoluto, não estamos sequer a falar de questões sensíveis para a soberania como os tribunais arbitrais para litígios de investimento fora do sistema jurisdicional nacional, porque não se concordar com tratados de comércio e também porque o Parmesão não é um nome absolutamente blindado não parece ser um caminho sensato.

Toda a liberdade para cada país de escolher o seu próprio caminho. No entanto, os sinais dos diferentes países, sobretudo na Europa Central e de Leste, como a Hungria, a Polónia e, em certa medida, até a Áustria, a serem correntes anti-Construção Europeia, os dois primeiros claramente ao nível dos valores democráticos e da preservação do Estado de Direito, a que se juntam os ávaros contabilistas da Holanda, fazem perigar ainda mais um mundo cada vez mais cheio de armadilhas.

Regresso ao início, estamos em guerra comercial entre EUA, China e União Europeia. A que se junta a questão geopolítica tradicional do ressurgimento de uma Rússia pouco democrática, imperial e de tendências expansionistas. É um mundo perigoso, no qual toda a unidade europeia será pouca. A todos os nacionalistas que pululam Europa fora seria bom lembrar que cada um por si, no jogo estratégico das grandes potências, não passará de uma mera nota de rodapé, um pequeno peão que será manietado ao sabor da relação de forças dos grandes. A UE precisa de ser recentrada, a arquitectura da moeda única precisa de ser reforçada face, entre outros, aos choques assimétricos, parece ser unânime, sobretudo em tempo de Brexit, mas não é a partir a UE aos bocados que chegaremos a bons resultados. Urge democratizar Bruxelas e trazê-la para juntos dos cidadãos europeus, importa tornar os seus procedimentos e negociações mais transparentes e sindicáveis, só assim a responsabilização será devidamente feita. O velho jogo do passa culpas entre Governos e instituições comunitárias não serve ninguém.

O mundo precisava de avançar com o estreitar de pontes e não com o agudizar de guerras estéreis. Falta mesmo uma Governança mundial e em tempos de fragilização da ONU, por alguns dos seus mais poderosos membros, isso torna-se mais evidente. Falta uma noção de que podemos chegar a acordo, respeitar economias locais, legislar sobre trocas comerciais, dignificar os direitos humanos e cuidar da saúde humana e do meio ambiente. Precisamos de um mundo regido por regras e normas, por princípios que conferem estabilidade à vida mundial. Mas não. Andamos a instigar populismos e a alimentar pequenos ditadores. Andamos em birras de crescidos. E as birras devem ter a mesma resposta que se dá às crianças: vale mesmo a pena fazer birra? Falar não é o melhor remédio? Enfim, esperemos que os adultos tomem conta da situação.