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Promover a poupança, como?

O otimismo, amigo do consumo, é necessariamente inimigo da poupança. Hoje, os portugueses poupam menos do que nos tempos da troika, um alerta que Helena Garrido nos deixa esta semana no seu artigo no Observador.

Para além da moderação do otimismo, há outras soluções, nomeadamente convencer as pessoas a pouparem mais. Mas esta não é uma tarefa fácil. Explicar os perigos que enfrentamos a nível macroeconómico, por exemplo, o quanto a queda da taxa de poupança teve influência na crise da dívida soberana, dificilmente entra nos corações dos portugueses. A verdade é que quantos mais somos a contribuírem para a criação de um problema, mais achamos que a solução passará pelos outros. Este comportamento de “andar à boleia” exige soluções criativas, comportamentais, como por exemplo, a construção de uma norma social.

As normas socias têm uma forte influência no comportamento humano. Em geral, gostamos de seguir o rebanho, de nos comportarmos como os outros se comportam. Esse comportamento médio, dito normal, é-nos confortável, porque sinaliza quão correto é o nosso comportamento. Num contexto de promoção da poupança, a criação de uma norma social, passaria, por exemplo, por informar o quanto poupamos em relação aos outros. Mais especificamente, as instituições financeiras poderem informar os seus clientes acerca da sua posição em relação à média no que respeita à taxa de poupança.

A pressão dos pares pode gerar emoções que afetam o comportamento. Por um lado, estar abaixo da média pode gerar sentimentos de vergonha em alguns, e a sensação de “perder a competição” em outros. Estes sentimentos podem contribuir para uma convergência das taxas de poupança, assim como, progressivamente, para aumentos da poupança média. Por outro, esta estratégia não é isenta de riscos. Para aqueles cuja poupança está acima da média, a informação deste facto, pode gerar a sensação de que se “poupa demais” e a tendência a reduzir a poupança. Mais, para aqueles cuja poupança é zero, ou muito baixa, saber a sua posição relativa pode gerar a sensação de que “nunca se chegará lá”, desmotivando qualquer nível de poupança.

A atribuição de informação pode, então, ter efeitos antagónicos, sobretudo se os indivíduos tiverem preferências socias diferentes, nomeadamente, diferentes disposições para contribuir para o bem-estar comum. Para testar tal facto, implementei, em conjunto com investigadores da Universidade de Purdue e do Arizona, uma experiência laboratorial. Mais especificamente, a intenção foi testar os efeitos da atribuição de informação, e a forma de fazê-lo, na capacidade de gerar uma normal social e aumentar a contribuição para a produção de um bem público, que beneficiaria todos. Primeiro, dada a heterogeneidade de preferências dos indivíduos, dar informação sobre o quanto se contribuiu para um bem público, em relação à média, de uma forma aleatória, gera os mesmos efeitos do que não dar qualquer informação. Segundo, direcionar a informação para determinados grupos, como por exemplo, só para quem contribui abaixo da média, ou só para quem contribui acima da média, tem efeitos positivos. Terceiro, contrariamente, ao que se pensa, informar aqueles cuja contribuição está acima da média, não tem efeitos negativos, pelo o contrário. Ou seja, aplicado à poupança, informar acerca da posição relativa aqueles que já têm uma disposição intrínseca para poupar, e cuja a taxa de poupança está acima da média, pode até aumentar sua disponibilidade a poupar.

Criar uma norma social em relação à poupança, pode ser um caminho a seguir, ou pelo menos a tentar, mas há outras alternativas, também comportamentais, que passam por compreender, primeiro, os obstáculos psicológicos à poupança.

Um dos grandes obstáculos é a preferência pelo o presente face ao futuro. Ou seja, os indivíduos colocam um grande peso no consumo presente e descontam hiperbolicamente o valor do futuro. Este enviesamento é tanto mais grave quanto mais novo se é. Um segundo obstáculo é a aversão a perdas, nomeadamente a sensação de que “pôr dinheiro de lado”, numa conta poupança reforma, é uma despesa e não um investimento. Terceiro, destaca-se o excesso de confiança e a sensação de que somos capazes de prolongar o presente risonho. Por último, a inércia e a procrastinação, que nos leva constantemente a deixar para amanhã o que devemos começar hoje.

Dados estes obstáculos, é importante desenhar políticas públicas e implementar soluções que passam por estratégias que permitam ultrapassar estes obstáculos. Por exemplo, é muito importante divulgar às gerações mais novas que a reforma que conseguirão ter, com os descontos que fazem para a segurança social, não lhes irá permitir manter o mesmo nível de vida que têm hoje, e nem, possivelmente, manter um nível de vida igual à dos reformados de hoje. Mais, é importante também criar estratégias que combatam a inércia e a procrastinação, como por exemplo, mecanismos de compromisso à semelhança do programa Save More Tomorrow (SMarT), proposto por Richard Thaler e Shlomo Benartz. Basicamente, os trabalhadores que aderissem ao programa, comprometiam-se a aumentar a sua taxa de poupança sempre que tivessem um aumento de ordenado.

Por último, não nos podemos esquecer da proliferação das novas formas de trabalho numa economia cada vez mais digitalizada. Os freelancers constituem hoje uma grande parte da população ativa que não tem ordenado certo, nem periocidade fixa para o receber. Dada esta mudança em direção a estruturas de pagamento mais desfasadas, ou mais “granulares”, é natural que a contabilidade mental que estes indivíduos fazem para organizar as despesas seja diferente. Os programas de poupança devem, para além de acomodar enviesamentos comportamentais, fazer face às alterações nestes enviesamentos gerados pelas novas configurações do mercado de trabalho.

Benartzi, S, Thaler, R (2013) Behavioral economics and the retirement savings crisis. Science, 339(6124):1152-1153.

Hashim, M., Kannan, K., & Maximiano, S. (2017). Information targeting and coordination: An experimental study. Information Systems Research, vol. 28(2): 289-308.