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Expresso

A ciência económica ao serviço do amor, saúde e felicidade

Esta quarta-feira, Alvin Roth, professor da Universidade Stanford e Harvard, que foi galardoado com o prémio Nobel da Economia em 2012, recebeu o doutoramento honoris causa pela Universidade de Lisboa, numa cerimónia que decorreu no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG). Este reconhecimento a Alvin Roth insere-se na celebração do décimo aniversário do Lisbon Meetings in Game Theory, uma conferência organizada pela UECE - Research Unit on Complexity and Economics do ISEG que está atualmente a decorrer e que conta, para além de Alvin Roth, com centenas de outros investigadores na área da teoria de jogos, um ramo da economia que estuda interações estratégicas.

O trabalho de Alvin Roth, em particular na teoria de matching, desenho de mercados e economia experimental, é notável e amplamente reconhecido pela academia e pelo público em geral. O discurso que fez, na cerimónia, à semelhança de outras suas intervenções que ao longo dos anos tive o privilégio de assistir, foi brilhante. Al, como é chamado, tem uma capacidade incrível que poucos cientistas e académicos têm, a de explicar mecanismos económicos, matematicamente complexos, de uma forma simples. Mas Al não desce apenas à terra quando fala de ciência económica, mostra que esta está ao serviço das pessoas e não deve andar a reboque dos mercados, como se estes fossem uma entidade supranatural omnipresente e omnipotente. Como Al disse “markets are tools”, ou seja, os mercados são ferramentas que nós construímos e que, à semelhança de todas as outras ferramentas que tivemos a capacidade de construir desde o inicio da humanidade, também estas se partem, enferrujam e falham, e é nossa responsabilidade, em particular dos economistas, arranjá-las.

A noção de economistas como arquitetos e engenheiros que desenham, constroem e reparam mercados não é descabida, e é sobretudo útil em negociações bilaterais. Por exemplo, se formos a uma loja comprar um presente, escolhemos, pagamos e saímos. O objeto que compramos não tem a capacidade de dizer que não, como nos filmes da Disney. Mas, imagine que a escolha que tem de fazer não é de um objeto, mas sim de uma pessoa, por exemplo, a pessoa com quem casar. Essa escolha não é unilateral, é preciso que a outra pessoa também queira casar consigo. E se a escolha envolver mais do que um casal? E se existir um interesse mútuo entre as pessoas, se cada indivíduo está interessado por outro que não é o seu companheiro?

Há muitos outros exemplos. No mercado de trabalho, os trabalhadores procuram um emprego que melhor se adequa às suas qualificações e fique na sua área de residência. Os empregadores procuram quem melhor se adeque a determinadas funções. Mas um emprego não está à venda. Existe uma candidatura, uma entrevista, uma decisão mútua. Outro exemplo semelhante é a colocação de estudantes no ensino superior. As faculdades têm vagas, mas a sociedade não considera eticamente correto vender as vagas aos alunos que possam pagar mais. Como é que se pode então garantir uma afetação eficiente dos trabalhadores a postos de trabalho, dos estudantes a Universidades e ter casais mais compatíveis e felizes? Este problema pode ser solucionado utilizando a teoria de matching. Por meio de algoritmos, é possível determinar-se qual o matching ideal, que garante um sistema de afetação estável e mais eficiente.

Mas a ciência económica não serve apenas para nos facilitar a vida, podendo mesmo salvar-nos a vida. Nos últimos anos, Alvin Roth tem aplicado a teoria do matching na criação de um mercado para a doação de rins. Este mercado não funciona a dinheiro, mas baseia-se no altruísmo e num algoritmo de afetação entre dadores e doentes. Por exemplo, suponha que o seu companheiro ou companheira precisa de um rim para sobreviver e que está disposto a salvar-lhe a vida, mas que infelizmente não é um dador compatível. Imagine, também, que em outro local alguém está a passar pelo mesmo, ou seja, existe um outro doente, um outro possível dador, mas sem compatibilidade. Existem então duas vidas em risco que podem, através da troca, encontrar a salvação. Ou seja, os centros de transplante recebem doentes e os possíveis dadores e através do algoritmo de afetação encontram um dador compatível. A troca, neste caso, permite salvar vidas, poupar milhões de euros em hemodiálise e reduzir as despesas associadas aos cuidadores de doentes crónicos que muitas vezes deixam de trabalhar para prestar assistência.

Numa conversa mais privada com Alvin Roth tive a oportunidade de falar sobre os seus novos projetos, os seus sonhos e ambições, entre os quais, um mercado de doação de rins à escala mundial e a afetação de refugiados também numa escala alargada. Falámos sobre a legalidade e ilegalidade de determinados mercados, como o mercado da prostituição e das barrigas de aluguer, as diferenças entre países e as especificidades portuguesas no que respeita à aceitação ou repugnância por determinados mercados, e até que ponto a visão dos indivíduos é consistente ou não com o enquadramento legal existente.

Alvin Roth, à semelhança de muitos economistas, é bastante pragmático na sua medição de bem-estar. Se um mecanismo permite uma afetação mais eficiente, se este mecanismo tem um impacto positivo na saúde, deve ser implementado. Na minha perspetiva, há, no entanto, um aspeto muito importante a considerar e debater na teoria de matching, e na ciência económica em geral, e que tem sido posto de lado: as questões éticas, nomeadamente as preferências morais dos indivíduos.

Os modelos económicos são construídos e otimizados deixando de lado as preferências morais. Após chegarmos a resultados ótimos, o debate ético, quando aparece, é feito à posteriori. Ou seja, a repugnância que os indivíduos possam sentir por determinadas soluções e mercados, é vista como um entrave que terá de ser eventualmente ultrapassado para chegar a situações de maior bem-estar. Mas, na minha opinião, os economistas podem e devem (pelo menos tentar) medir as preferências morais dos indivíduos, e usar esta informação, por exemplo, quer em análises custo-benefício de políticas económicas, quer nos algoritmos de afetação. Basicamente, significa tornar os algoritmos mais humanos, com preferências sociais e morais.

Por último, numa das minhas aulas, quando expliquei aos alunos o trabalho de Alvin Roth e lhes falei do exemplo da teoria de matching aplicado ao “mercado de casamentos”, alguém me informou de um programa de televisão que recentemente estreou na SIC: “Casados à primeira vista”. Neste programa, os casais são construídos por um painel de especialistas, nomeadamente, um psicólogo, um neuropsicólogo e dois especialistas em coaching que juntos escolhem um match perfeito para cada concorrente. Na sala um outro aluno diz: “A professora devia dizer à SIC para convidarem Alvin Roth”. Ri-me com a (im)possibilidade mas senti-me feliz por cada vez mais transmitir que as ferramentas económicas servem para tratar de variados assuntos que vão para além do défice e da inflação.