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Quando o desespero leva a estratégias suicidas

O tráfego aéreo tem crescido sem precedentes e a um ritmo tal que o fluxo de entrada de novos pilotos no mercado não consegue acompanhar. Segundo a Boeing, até 2035, a aviação mundial vai necessitar de 617 mil novos pilotos, o que tem levado as companhias aéreas, incluindo a TAP, a tentar, a todo o custo, atrair e fixar trabalhadores. Esta não é uma tarefa fácil, sobretudo quando as oportunidades de trabalho surgem em diversas partes do mundo, com salários muito mais atrativos e benefícios fiscais e outras regalias monetárias e não monetárias difíceis de igualar.

É neste quadro de desespero, que li, no Expresso, que a TAP vai exigir aos novos pilotos contratados uma comparticipação nos custos de formação de 30 mil euros. Ou seja, como referido na notícia, os trabalhadores terão de descontar cerca de 830 euros do salário bruto mensal de 3 mil euros, durante 36 meses.

A TAP advoga que esta medida permite não só à companhia um encaixe financeiro de 9 milhões de euros, mas também serve para evitar que os pilotos contratados saiam para companhias estrangeiras. A mim, parece-me, no contexto atual e sobretudo como foi apresentada, que esta medida é um tiro nos pés. Por um lado, pode dissuadir à partida candidatos. Por outro, com ofertas de trabalho de companhias estrangeiras que pagam salários bem mais elevados, a não ser que a cláusula de rescisão tenha custos astronómicos, o que por si só também afastaria candidatos, não me parece que a comparticipação na formação seja motivo suficiente para fixar os trabalhadores à empresa, pelo contrário, pode servir de alavanca para um emprego melhor.

Há que ressaltar, no entanto, que a estratégia da TAP faz teoricamente sentido. Quanto mais geral é a formação profissional, ou seja, quanto mais o que se aprende possa ser utilizado fora da empresa que investiu na formação, mais comparticipada deverá ser a formação pelo trabalhador. Aliás, o risco de renegociações após a formação, dos trabalhadores saírem da empresa e aplicarem o que aprenderam em empresas concorrentes, faz com que as empresas fiquem mais relutantes em investir em formação profissional. Dado que uma situação de subinvestimento não é benéfica do ponto de vista social, para minimizar este problema é preciso escrever contratos mais completos, com cláusulas de rescisão, e fazer com que os trabalhadores cubram pelo menos parte dos custos da formação.

A TAP, ao exigir uma comparticipação na formação, não está a fazer mais do que minimizar o risco de investimento sem retorno. No entanto, dadas as circunstâncias atuais, a falta de pilotos e a competição cerrada de outras companhias aéreas – por exemplo, a campanha de recrutamento da Aer Lingus: “We’ll train you for free” –, o que não faz sentido é tornar a comparticipação na formação visível ao ponto de ganhar um destaque negativo na comunicação social.

Os riscos poderiam ser minimizados na cláusula de rescisão, exigindo o pagamento da formação apenas se o trabalhador saísse da empresa. Mais, a TAP, durante o período da formação, pode pagar um salário mais baixo, uma prática que é comum em muitas empresas, prometendo um aumento após a formação. Em teoria esta solução é equivalente à formação comparticipada, e ao desconto mensal proposto, mas na prática, pode ter efeitos diferentes. Como a teoria económica comportamental indica, os indivíduos evitam situações onde as perdas são evidentes. Sendo assim, faria mais sentido motivar potenciais candidatos oferecendo-lhes a perspetiva de um aumento salarial no fim da formação do que desmotivá-los à partida com a imposição de um pagamento obrigatório. Por último, a campanha da Aer Lingus é, do ponto de vista do marketing, ideal. Como não há almoços grátis, é mais que certo que os trabalhadores contratados pagarão a formação de uma forma indireta, mas a imagem que a Aer Lingus passa para a comunicação social, para as companhias concorrentes e para os novos candidatos é-lhe mais favorável.

Não tenho uma fórmula mágica para contratar pilotos e muito menos os fixar com residência fiscal em Portugal. Num mercado cada vez mais global e competitivo é difícil atrair e fixar os melhores. O que sei, é que haverá cada vez mais companhias de primeira, segunda e terceira liga. Aquelas onde os pilotos receberão milhões e outras onde os pilotos pagarão para voar. Mas, mesmo para as equipas de terceira liga, há pequenos “nudges” que que podem fazer a diferença e que são bem melhores que estratégias suicidas.