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Expresso

Mitos futebolísticos

No jogo com o Irão, Ricardo Quaresma, mesmo antes do intervalo, marcou um golo fenomenal que deu a Portugal a liderança até quase ao final da partida. Segundo um dos mitos do futebol, a seleção nacional seguiu para intervalo em alta, não só com uma vantagem numérica, mas também psicológica.

Dizem os crentes entendidos que marcar a poucos minutos do intervalo é uma das melhores vitaminas para o resto do jogo. Mais precisamente, um golo por volta dos 45 minutos faz aumentar, durante o intervalo, a confiança da equipa que o marcou, fortalecendo a equipa psicologicamente para a segunda parte. Mais, este golo leva a equipa ao balneário num estado emocional que por si só pode levar jogadores e treinador a escolher alterar a tática de jogo para o resto da partida. A equipa adversária, por sua vez, vai para intervalo mais stressada porque tem de marcar, e marcar só lhe confere um empate. Esta pressão pode alterar a perceção das capacidades e limitações de ambas as equipas, minar a confiança, levando a um pior desempenho na segunda parte.

Apesar de tudo isto fazer sentido, será que não é apenas uma das muitas crenças do mundo futebolístico alimentada por jornalistas e comentadores desportivos? Até que ponto, controlando estatisticamente as variáveis que caracterizam as equipas e o jogo, por exemplo, a diferença de golos até então, se o jogo é em casa ou fora, o número de cartões amarelos, as expulsões e as substituições, um golo antes do intervalo tem mais impacto no resultado final do que um golo marcado em qualquer outra altura da primeira parte?

Alguns economistas, académicos, debruçaram-se sobre esta questão. Primeiro, considere-se o estudo dos investigadores belgas Stijn Baerte e Simon Amez que analisou dados de 1179 jogos da Liga de Campeões e da Liga Europa entre 2008 e 2014. Os resultados do estudo mostram que, controlando a diferença de golos e outras variáveis, para as equipas que jogam fora não existe diferença significativa em marcar a poucos minutos do intervalo no resultado final do jogo. Surpreendentemente, para as equipas que jogam em casa, o efeito até é negativo. Ou seja, para as equipas da casa que marcam um golo entre os 45 minutos e o final da primeira parte (o tempo extra poderá ser maior ou menor consoante as interrupções do jogo) em comparação a outras da casa que marcam em outra altura da primeira parte, o número total de golos da partida é menor, reduzindo assim, a probabilidade destas equipas ganharem a partida. Pode ser então, que a haver uma influência nos resultados, esta seja contrária à que se pensa, ou seja o “boost” psicológico pode levar a um excesso de confiança que diminui a concentração e consequentemente o desempenho.

O segundo estudo, publicado este ano no Journal of Economic Behavior and Organization pelos economistas Romain Gauriot e Lionel Page, investigadores em Universidades Australianas, usa um método diferente para testar este mito. Usando dados de cinco ligas europeias, Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Espanha, de 2006-2007 a 2015-2016, mostram que, se compararmos equipas com o mesmo número de golos na primeira parte e considerarmos simplesmente o desempenho das equipas na segunda parte, existe uma relação “efetiva” entre a altura em que o golo é marcado na primeira parte e o desempenho da equipa que marcou esse golo no segundo tempo. Ou seja, as equipas que marcam mais tarde na primeira parte têm maior probabilidade de marcar na segunda parte e assim vencer o jogo. Este padrão parece então consistente com o mito que defende que é especialmente benéfico marcar muito perto do intervalo.

Esta análise, no entanto, está enviesada porque não controla verdadeiramente diferenças de qualidade das equipas. Efetivamente, equipas melhores tendem a poupar esforços no início do jogo, atacar mais à medida que o jogo progride e marcar mais tarde. Para controlar as diferenças na qualidade das equipas e o tipo de jogo que fazem os autores usam um método quase-experimental. Este método consiste em procurar, na base de dados, para cada equipa que marcou antes do intervalo, outra que teve na primeira parte um desempenho semelhante e até um golo falhado pouco antes do intervalo, nomeadamente, um lance à barra. Estas equipas servirão como equipas de controlo. Usando esta metodologia, não foi encontrada evidência estatística que comprova o mito. Mais especificamente, o desempenho na segunda parte das equipas que marcaram perto do intervalo é semelhante ao desempenho das equipas que marcaram em outras alturas da primeira parte.

Não há nada como a ciência para destronar o senso comum e as crenças futebolísticas. Mas, não vá o diabo tecê-las e realmente a nossa seleção sair fora da média e estar cheia de outliers, pelo sim pelo o não, que amanhã com o Uruguai se repita a primeira parte do jogo com o Irão. Mais, ir para intervalo com um golo acabadinho de marcar, mesmo que não traga alguma vantagem psicológica à nossa seleção, pelo menos dar-nos-á um intervalo em alta cheio de boas emoções.

Gauriot, R. and Page, L. (2018). Psychological momentum in contests: The case of scoring before half-time in football. Journal of Economic Behavior and Organization, vol. 149, pp 137-168

Baert, S. and Amez, S. (2016). No Better Moment to Score a Goal than Just Before Half Time? A Soccer Myth Statistically Tested, IZA discussion paper No. 9980