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Soa a burrice

Maria Luísa Vasconcelos, Professora da Universidade Fernando Pessoa

Os portugueses são pródigos em opinar. Sobre tudo se opina, sempre com toda a absoluta certeza e basicamente com quase nenhuma informação. Sem qualquer pudor, elevamos conversas de café a tratados de economia e de política. Esta semana, em particular, foi pródiga em exemplares de conversas de café. Ao que parece, o PM português e sua equipa, coitados, não perceberam ainda a dimensão, o alcance e a dimensão crise. Pasme-se.

Ninguém em melhor posição do que a equipa das finanças, e necessariamente o chefe do executivo, para, em simultâneo, conhecer, entender, acompanhar (e preocuparem-se) com a volatilidade dos mercados e os seus impactos imediatos nas contas portuguesas. Poder-se-á "opinar" quanto à inteireza com que a informação é transmitida aos portugueses (aos mercados). Ou quanto ao reconhecimento público da dimensão dos impactos recessivos das medidas de austeridade. Ou ainda quanto ao desequilíbrio de ajustamento pela receita e pela despesa, que procura sobretudo resolver o curto prazo mas deixa o brutal das reformas estruturais para mais tarde e persiste numa política de mui caras e mui controversas obras públicas. Dito isto, "opinar" quanto a falta de entendimento é um pouco além do razoável. Aliás, soa a burrice.

Neste momento, economia real e economia financeira não se reflectem. Não fossem os movimentos especulativos, andaríamos até agradados com os sinais relativos de desempenho na nossa economia. Não fosse o desempenho perdulário dos agentes público e privado, acumulado ao longo de décadas, esses movimentos especulativos não vingariam sobre a nossa economia. Não fosse a ideia de que "o Estado é um "cabide de empregos", um saco sem fundo de subsídios, e um agente económico que tanto pode ser chamado a estar como a destar na economia consoante o interesse do resultado dos privados... não fosse a ideia de que a produtividade se mede no trabalho das famílias, esquecendo-se a função empresarial e os serviços públicos e toda a organização das actividades, económicas e políticas... não fosse a ideia de que a responsabilidade é sempre e toda dos políticos esquecendo-se a nossa condição de cidadãos, com iguais direitos e deveres no exercício dessa intervenção...

Dada a inoperância e/ou a demora e/ou ou falta de vontade em alterar as regras de funcionamento nos mercados financeiros a nível europeu e global, a probabilidade de um plano de salvamento (e intervenção) do tipo da Grécia na nossa economia, está hoje grandemente desligada da política económica em Portugal. Sejam quais forem as medidas de austeridade adicionais, há a possibilidade do drama financeiro permanecer inalterado. E com ele, não bastasse a dificuldade no acesso ao crédito, continuaremos a contar tostões para pagar as nossas dívidas, em data e hora certa. A hipótese de reescalonar pagamentos pressupõe, desde logo, que há lugar a algum tipo de intervenção/apoio exterior. Dizê-lo em voz alta, como alguns pretendem, não significa nenhum maior entendimento, nem transforma ninguém em anunciador de alguma grande verdade. Espelha, contudo, a inquietação (o nervosismo) de quem acompanha com proximidade este vórtice financeiro e sabe que, para nós, atingiu e poderá ter-se alojado na essência das nossas insuficiências estruturais. Atingiu um corpo doente.

Já se sabia? É como o vulcão. Tal como as profundas debilidades da nossa economia, estava lá. Estava adormecido, mas todos sabíamos da possibilidade de entrar em actividade. A banca sabia, e geme agora, mas durante anos não se coibiu de emprestar, a quem não devia e a quem devia. O Estado sabia, e abana profundamente agora, mas durante anos não se coibiu de gastar bem e de gastar mal. Umas famílias não sabiam, outras não quiseram saber, mas todas vão ressentir-se, também porque durante anos não se terem coibido de consumir e de se endividar. As empresas sabiam, ou deviam saber, e hoje muitas poderão fechar, também porque durante anos se esqueceram de modernizar, de inovar, de internacionalizar. Muitos agentes políticos tradicionais, cuja função inclui fiscalizar e por isso saber, apontam hoje teatralmente o dedo, mas durante anos deixaram andar, entretidos em assunto-zinhos que afastaram os cidadãos da vontade e da convicção em participar.

O brutal das reformas, das quais ainda só tivemos começos (e já assim com grande contestação social), terá que vir por aí. Primeiro, há que sobreviver ao imediato. Depois, escolher um caminho, sem hesitações minoritárias ingovernáveis. Conhecer de verdade as alternativas, escolher informadamente, votar com verdade, intervir como cidadãos.

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