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Recolocar o euro

Maria Luísa Vasconcelos, Professora da Universidade Fernando Pessoa

O BCE irá proceder à compra de divida soberana dos Estados-membros europeus. O objectivo será aumentar a liquidez dos países e das empresas, reduzindo de forma garantida as dificuldades no acesso ao financiamento. Bem sabendo da independência e missão de estabilidade que protagoniza o BCE, será o grau de desespero pelo financiamento a única razão para, apenas agora, ter sido "politicamente motivado" a fazê-lo?

Os ditos ataques especulativos, que fazem caminho suportando-se nos péssimos desempenhos ao nível dos endividamentos públicos e privados europeus, escrevem por linhas tortas uma desvalorização do euro. Desta, beneficiarão os exportadores, ou se quisermos os principais países exportadores europeus, eles mesmos, paradoxalmente, detentores de dívidas soberanas deterioradas. Se para estes países deixar cair o euro não é opção, viver com um câmbio mais favorável, é uma necessidade há muito ressentida.

Um reequilíbrio de forças cambial corrigirá uma relação desfavorável às economias europeias. Com efeito, se no longo prazo, a depreciação de uma moeda sinaliza uma economia fraca e pouco competitiva, no curto prazo, a depreciação do euro pode gerar alguns efeitos benéficos na produção e no emprego, suscitando maior crescimento sobretudo nos Estados mais exportadores para o mercado extra-comunitário. É o caso de economias como a alemã ou a francesa. Será o caso, também, de economias como a portuguesa que, apesar de dirigir 75% das suas exportações para os parceiros comunitários, enfrenta mercados europeus saturados, deprimidos, e é forçada a crescer para o mercado extra-comunitário. Agradecerá um empurrão competitividade-preço pela via cambial. Agradecerá um euro recolocado.

Ora, o euro desvalorizou 15% face ao dólar desde Novembro. As exportações da Alemanha, até há pouco o maior exportador no mundo no ranking da OMC (e onde um em cada três postos de trabalho depende das exportações), cresceram em Março ao valor mais elevado dos últimos 18 anos. Conspiração à parte, diz-me a sensibilidade de uma voz empresarial que "isto só pára com o câmbio ao nível dos USD 1,2".

No caminho desta convulsão financeira surgirão as tensões sociais, mas também a justificação para o acelerar das "medidas adequadas e urgentes" dos planos de consolidação fiscal: congelamento e/ou redução nos salários dos funcionários públicos, eliminação de benefícios fiscais, corte nos subsídios, alteração nas regras relativas a prestações sociais. E, claro, aumento de impostos. Mas destes quase esquecia, dado que os li em rodapé entre o Benfica e a visita Papal.

Haverá impactos recessivos sobre o crescimento e o emprego, mas este é o preço a pagar pelo retomar da confiança nos mercados financeiros. Esperemos receber sinais de justiça na repartição do esforço e lembremo-nos de que o sacrifício que nos será pedido é a colheita do que andámos a semear, agentes públicos e privados.

A tarefa é grave e crítica.

O problema de Portugal não é tanto o défice. É a dívida, pública e privada. O crescimento homólogo do PIB de 1,7% no primeiro trimestre e de 1% face ao trimestre anterior, que nos torna o "campeão do crescimento" na UE, é motivo de agrado mas não de suficiente alívio. É sobretudo motivo de alento para continuarmos a trabalhar, para que haja vida para além do endividamento.

Nota: Numa nação católica tão pouco praticante, num Estado em que vigora a laicidade, numa economia tão insolvível e tão endividada, por que pára o País?

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Este texto é da inteira responsabilidade do autor e da entidade representada.