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Decisões de Investimento

Ana Paula Serra Professora da FEP e da EGP-UPBS

Ao longo de 2008, temos observado reforços nas posições accionistas no capital de algumas empresas portuguesas cotadas na Euronext Lisboa. As compras têm sido realizadas por accionistas fundadores (como é o caso dos irmãos Martins na Martifer), famílias (como é o caso da família Mota na Mota-Engil), accionistas com participações estratégicas (como é o exemplo de La Caixa no BPI), bem como por titulares de cargos na administração dessas empresas e até pelas próprias empresas (compra de acções próprias). Sendo obrigatória a comunicação ao mercado das operações relativas às últimas duas categorias, para as outras, essa comunicação só é requerida caso se tratem de participações qualificadas. Se atentarmos apenas nas transacções de acções próprias realizadas em bolsa, só nos últimos 3 meses, são mais de 10 as empresas que informaram terem adquirido acções próprias, directamente ou através de participadas. Dentro destas, o destaque vai para empresas que asseguraram com estas compras posições accionistas não triviais como é o caso da Ibersol (10%), da Mota-Engil (5.1%), da Brisa (3.9%), da Novabase (2.7%), da Portucel (1.75%), da Sonaecom (1.6%) ou da Cimpor (1.3%). Apesar de algumas destas transacções envolverem grandes tranches de acções, não sendo por isso de descartar compras a investidores que quiseram vender ou anular posições, parece ser possível descortinar nestes movimentos, programas expressos de compra de acções próprias. Como interpretar estas transacções? Se é certo que haverá especificidades num conjunto tão diverso de realidades empresariais, parece legítimo ainda assim, tentar encontrar razões comuns para estas decisões por parte das equipas de gestão. Poderemos desde logo, isolar um primeiro subconjunto de empresas, as quais observaram cumulativamente com a compra de acções próprias um reforço da participação dos accionistas à frente da empresa ou dos que detêm a maior participação accionista. Em alguns casos, mas não em todos, é muito provável que umas e outras compras visem o mesmo objectivo: garantir ou alcançar uma posição mais confortável de controlo fazendo-o num momento de elevada quebra nas cotações dos títulos. Noutros casos porém, quando a questão do controlo não parece crítica, e independentemente de haver ou não reforços da posição do accionista de controlo, a leitura é mais complexa. Sabemos que as equipas de gestão seguem políticas de recompra de acções próprias quando visam sinalizar ao mercado que as suas acções estão baratas, assegurando em paralelo a distribuição dos fundos gerados aos seus accionistas de uma forma fiscalmente menos penosa que os dividendos. Muitos outros argumentos podiam ser aqui aduzidos, mais ou menos nobres, como seja o de evitar menores quedas nos títulos da empresa, para que em potenciais operações de F&A em vista, por troca de acções, se melhorem os termos de troca. Noutra conjuntura, seria relativamente pacífico reconhecer virtudes à política de recompra de acções próprias e a discussão ficaria por aqui. Porém, no contexto actual de crise económica e financeira, a leitura sobre esta política poderá não ser consensual por não ser claro se dela decorrem benefícios líquidos para os accionistas, mesmo para os maioritários. As equipas de gestão podem invocar que as acções estão baratas, para tal chamando a atenção para o desempenho bolsista dos títulos no último ano. Esse argumento seria válido apenas se as acções estivessem tão baratas que os gestores olhando à sua volta e pensando estrategicamente, não encontrariam no mercado melhores oportunidades que as acções da sua própria empresa. As acções teriam que estar muito, muito baratas e as empresas em excelente saúde financeira, só assim justificando que se pudessem dispensar fundos líquidos que, no futuro próximo, poderiam ser essenciais para aproveitar as pechinchas que se adivinham, facilitariam o acesso ao crédito em condições preferenciais, e garantiriam com muito mais certeza a sua sobrevivência em cenários improváveis mas possíveis de uma depressão profunda. As equipas de gestão destas empresas têm acesso a informação privilegiada sobre a qualidade dos seus activos e a solidez dos seus balanços. A decisão de eleger como investimento a compra de acções próprias terá que ser interpretada assim como um sinal de grande confiança no futuro.

Este texto é da inteira responsabilidade do autor e da entidade representada.