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Bail-out automóvel

Prof. Ricardo Ferreira Reis

Há um conjunto de interessantes assuntos a abordar na questão do bail-out automóvel. Desde logo a sua oportunidade: ou seja, será esta uma medida imposta aos políticos de Washington pelo poderossísimo lobby sindical dos automóveis? Há quem ache que sim, em particular depois do Estado do Michigan ter sido uma estado batalha nas últimas presidenciais. Nesse sentido, um estado tipicamente blue collar (isto é, um estado tipicamente de trabalhadores e onde os eleitores democratas eram bem mais próximos da Srª Clinton que do eleito Presidente Obama), poderá estar já a cobrar a Obama e à direcção democrata a lealdade de não ter votado McCain em Novembro. Por outro lado,a direcção republicana também parece estar um pouco ressabiada, exigindo um corte salarial para aprovar o pacote no Senado. Como sempre, Washington no seu melhor, com cada partido a olhar para o umbigo, sem procurar encontrar uma solução eficiente para um problema grave.

Outro aspecto interessante é questão de saber se não era melhor as empresas automóveis simplesmente declararem falência. Declarar falência não significa que elas fechem as portas. Antes ficam protegidas de algumas obrigações e podem aproveitar para reestruturar-se. Quase todas as companhias aéreas americanas passaram por um processo destes recentemente e todas elas acabaram recuperar. A questão nessas reestruturações é que obrigações ficam por pagar. No caso, das companhias aéreas os planos de pensões do pessoal foram das primeiras coisas a cair. Ou seja, muitos pilotos viram-se na contingência de perderem pensões de reforma bastante simpáticas, ficando literalmente obrigados a continuar a trabalhar mais tempo para poderem ter uma reforma. Como os pilotos não podem optar por trabalhar até mais velhos, muitos deles tiveram de continuar a trabalhar noutras profissões após a reforma. E nos automóveis? Que obrigações cairiam? Nestas circunstâncias é pouco frequente as companhias em falência deixarem de satisfazer obrigações que são iminentemente comerciais. No caso, das companhias aéreas recordo-me bem de que uma das obrigações que se manteve foram os programas de milhas. Isto representou, pelo menos para mim, uma surpresa, porque as companhias deixaram cair as pensões de reforma, mas não as milhas oferecidas aos passageiros. Porquê? A explicação é comercial. O pior que pode acontecer a uma companhia falida é perder os clientes. Nos automóveis o equivalente a estes benefícios são as garantias. Estarão as empresas automóveis disponíveis para aguentar as garantias dos automóveis a todo o custo? O mais provável é que sim. Já não é óbvio para mim, que as empresas automóveis consigam manter os mesmos níveis de emprego. Ou seja, mesmo com o plano, vamos ter aumento de desemprego nesta indústria. A minha dúvida é se não faria mais sentido o plano de bailout responsabilizar-se, por exemplo, pelas garantias dos automóveis, ajudando assim a manter algum do emprego.

Terceira reflexão, aliás levantada pelo anterior candidato presidencial Mitt Romney: estaremos a promover a inovação na indústria automóvel, ao passar um bail out desta dimensão? A questão é tanto mais pertinente, quanto mais o preço do petróleo está em queda livre há uns meses, repondo a competitividade de veículos energeticamente ineficientes. Ora por um lado, esta poderá a ser então a oportunidade que as empresas automóveis americanas necessitam para se relançarem. Fazer automóveis altamente pouco eficientes é o seu forte e aquilo que o mercado americano procura. Faltará apenas um pequeno empurrãozinho do bail out para a coisa voltar aos trilhos antigos. O problema é que estes trilhos não levam a lado nenhum e na próxima crise petrolífera lá estão estas empresas em dificuldades a olhar com inveja para os progressos feitos nos carros japoneses e europeus em matéria de eficiência energética.

Deixo estas três reflexões, e uma opinião: sem dúvida que está na hora da indústria automóvel e do próprio consumidor americano repensar que tipo de automóvel quer, aproximando-se mais de padrões que os protejam de uma dependência petrolífera tão grande. Os próximos tempos dirão se os americanos se dispõem dar este salto, ou se vão abdicar de uma indústria que lhes é tão culturalmente querida.

Este texto é da inteira responsabilidade do autor e da entidade representada.