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Afinal os problemas americanos não são só na banca. Quem irá ceder a seguir?

Bruno Santos, Assistente da disciplina de Gestão de Activos Financeiros

Após o sector financeiro americano evidenciar sinais de ruptura, seria espectável que outros sectores da maior potência mundial também se ressentissem. Rapidamente o sector automóvel acusou graves problemas de liquidez. Embora Setembro seja normalmente um mês favorável à venda de veículos, o mercado americano não apresentou um comportamento 'normal' assumindo o valor de vendas mais baixo desde a remota data de 1980. Tal situação representará, de acordo com as estimativas, uma queda de 25% em relação a 2007 o que, face aos mínimos de poupança assumidos pelas construtoras, fez, desde logo, perspectivar um clima de ruptura financeira. Tendo em conta, a situação de algumas empresas de referência neste sector: a GM e a Ford, é visível um ambiente preocupante já que acumulam mais de 30 mil milhões de dólares de perdas líquidas no presente ano. A nível bolsista, a Ford chegou a estar cotada abaixo dos 2 dólares por acção, valor que corresponde a menos de 4 mil milhões de dólares em bolsa; dois meses antes a empresa apresentava uma capitalização bolsista superior a 10 mil milhões. Por seu turno, a situação vivida pela GM foi mais mediática. O Deutsche Bank, após afirmar que "sem ajuda a GM não poderia sobreviver", assumiu um 'target-price' entre 1 e 0 dólares para o valor das 'GM stocks'. A reacção bolsista não se fez esperar, o receio fez com que o valor accionista caísse uns impressionantes 22% (dia 10/10) e 12,8% no dia seguinte. A capitalização bolsista da GM caiu de uma posição cimeira no sector da construção automóvel a nível mundial, para um valor de mercado de apenas 2 mil milhões de dólares. A Chrysler deixou de negociar em bolsa em consequência da não divulgação dos seus resultados. Rick Wagoner, CEO da GM, afirma que "será necessária uma ajuda, a curto prazo, que faça a indústria automóvel respirar". Com o país perto de uma recessão económica, a obtenção de financiamento nos mercados financeiros enfrenta graves dificuldades, sendo a única opção possível o apoio proveniente do Governo. Com efeito, a tribuna democrata tem vindo a defender um conjunto de apoios financeiros à indústria automóvel americana incluído no pacote de 700 mil milhões de dólares do Plano Paulson (que inicialmente teria como destino a ajuda ao sector bancário). Tal medida impediria uma falência anunciada da GM, e o consequente colapso na economia americana: despedimento de 3 milhões de colaboradores apenas no primeiro ano, a contracção de 3 a 4 pontos percentuais no PIB dos EUA e um efeito dominó em relação aos fornecedores, onde as dívidas ascendem a 28 mil milhões de dólares. Todavia, seria necessário que os republicanos e o Presidente ainda no poder, George W. Bush, acordassem esta medida. O Presidente, embora tenha aprovado o apoio de 25 mil milhões de dólares para a orientação da produção automóvel em moldes mais ecológicos, exige condições para subsidiar directamente a salvação destas construtoras. A verdade é que até ao momento, talvez por razões 'burocráticas', este valor não foi disponibilizado. A resposta europeia não se fez esperar. Foi aprovado um 'budget' de 40 mil milhões de euros para a reestruturação, em moldes menos poluentes, do sector automóvel europeu. No entanto, são os grandes produtores alemães, que sempre se mostraram renitentes à redução das emissões de CO2, que, decerto, irão absorver a fatia de leão destes apoios. Os problemas da Fiat, Volvo ou Daimler são da responsabilidade das próprias empresas e não podem ser justificados pela crise nos mercados financeiros. O exemplo contrário é o do sector da construção automóvel em França: em Setembro, em resultado do plano de investimentos e respectiva reestruturação, recentemente levados a cabo, registou-se um aumento das vendas em 8%. Neste debate, começam a ter cada vez mais peso os argumentos que questionam se fará sentido um apoio estatal à indústria automóvel nos EUA. Na Europa, cuja situação não é nem pode ser equiparada à americana, muito menos sentido fará. Porque não deixar o mercado fluir livremente, e ignorar a tendência 'nacionalizante' que pegou moda após os problemas na banca? Se neste caso é compreensível devido à necessidade de estabilidade económica e financeira, na indústria automóvel colocam-se algumas dúvidas. Uma organização como a GM ou a Ford nunca poderão simplesmente 'encerrar'. Em caso de falência iminente irão, sim, abrir um espaço para uma parceria ou aquisição, por parte de outra(s) empresa(s) de referência. Historicamente, verificamos uma certa tendência das grandes empresas só potenciarem uma reorientação estratégica quando estão perante uma situação delicada. Pode ser que esta grave situação de colapso eminente precipite uma grande reestruturação empresarial do sector automóvel ao nível global. Por vezes há males que vêm por bem.

Este texto é da inteira responsabilidade do autor e da entidade representada.