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A crise, Portugal e o dia seguinte

Jorge Santos, Professor catedrático do ISEG

Não parece muito arriscado afirmar que sem as intervenções mais ou menos determinadas dos governos e bancos centrais dos E.U.A, do Reino Unido e de outros países europeus, a economia ocidental sofreria provavelmente uma depressão prolongada e comparável à de 1929-33. Temos assistido a injecções enormes de liquidez e à garantia de empréstimos para retoma do crédito; às tentativas de evitar falências de bancos para conter riscos sistémicos e quebras de confiança; ao empenho na utilização de políticas públicas activas no sentido de aumentar a "procura agregada" na economia, seja através do investimento público, seja pela sustentação do consumo privado (através da redução de impostos, aumento de subsídios ou pela distribuição de cheques, como planeado para os E.U.A.); e finalmente a políticas activas de manutenção do emprego.

Keynes (re)apareceu na ordem do dia. As ideias de que as economias capitalistas poderiam manter-se em "equilíbrio" abaixo do pleno emprego por períodos prolongados e com taxas de juro tão baixas que a política monetária deixaria de ser eficaz; que nesses períodos o desemprego não seria resolvido por uma diminuição de salários, mas sim por um acréscimo de procura dos produtos das empresas; que os défices orçamentais gerados pela diminuição dos impostos relacionados com a redução da actividade económica não deveriam ser corrigidos com uma diminuição das despesas públicas mas eventualmente agravados com o aumento destas, no sentido de aumentar a procura agregada na economia - têm sido quase unanimemente adoptadas e prescritas, quer pelos governos, quer pelas instituições internacionais e estou de acordo com esses procedimentos.

Suponhamos que esta crise é ultrapassada dentro de um a dois anos com essas políticas keynesianas, e que são resolvidos (ou pelo menos mitigados) alguns dos problemas dos mercados financeiros que estiveram na sua origem: regulação e supervisão limitadas e pouco abrangentes; excessiva titularização; demasiada fé nos modelos matemáticos financeiros de controlo do risco, etc. Seriam os problemas da economia portuguesa resolvidos com défices orçamentais sistematicamente elevados e com um crescente peso do Estado na economia? De maneira nenhuma. Não se resolveria o grave problema de endividamento da economia ao exterior, que se aproxima do valor do PIB e que reflecte um crónico "viver acima das possibilidades" por parte dos portugueses, para além de se correr o risco de um crescimento exponencial da dívida pública que pura e simplesmente destruiria a economia.

Os problemas centrais da economia portuguesa têm a ver com a falta de empreendedorismo, demasiada dependência do Estado, escassez de educação, de qualificações e de inovação, ineficiência na justiça. Numa palavra, a economia portuguesa ainda é pouco competitiva a nível global. Espera-se que a actual crise não nos leve a sair de um caminho que começou a ser percorrido e que terá de ser empenhadamente calcorreado. Por muito que custe.

Este texto é da inteira responsabilidade do autor e da entidade representada.