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Expresso

Economista poeta

Um Óscar pelas más razões

A Academia de Hollywood decidiu atribuir o Óscar para o melhor filme de 2006 a The Departed – Entre Inimigos, de Martin Scorcese, a par do Óscar para o melhor realizador.

Os especialistas já disseram que a Academia deu mostras de dar alguma atenção ao cinema independente ou realizado por realizadores não anglo-saxónicos. Mas, no final, acaba por premiar sobretudo os produtos made in Hollywood, mostrando que não quer promover em exagero filmes que possam pôr em causa o seu próprio poderio na indústria cinematográfica mundial.

Scorcese é um enorme realizador. The Departed é um filme com grandes qualidades. Mas os dois Óscares para Scorcese resultaram da má consciência que a Academia têm para com o realizador, por em anos passados e por excelentes filmes nunca o ter distinguido.

Por outras palavras, Babel, o concorrente derrotado, é um filme mais interessante, muito mais abrangente porque fala de pessoas comuns atiradas para situações incomuns e muito mais global e menos americano do que The Departed. A história (ou histórias) de Babel têm uma riqueza muito superior à The Departed, que incide sobre o tema das "ratazanas" (informadores) utilizados pela polícia americana para minar as organizações mafiosas e a resposta, no mesmo tom, dessas organizações em relação à polícia.

Babel passa-se em três continentes, conta as realidades e a vida de cada um deles e a rotina e os dramas dos cidadãos de países tão diferente como Marrocos, Japão, Estados Unidos e México. The Departed passa-se numa qualquer esquadra de polícia de um qualquer bairro de uma qualquer cidade americana.

Ou seja, Scorcese merece, pela sua carreira, o Óscar de melhor realizador (e não por este filme, pelo menos em comparação com o seu concorrente directo). Mas, para mim, o vencedor é ... Babel. Sem nenhuma dúvida - e como o Globo de Ouro que lhe foi atribuído pela imprensa estrangeira prova, sem margem para dúvidas.

Nicolau Santos,

Director-Adjunto