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Expresso

Economista poeta

Primavera e poesia

Hoje chegou a Primavera e lembro-me sempre de uma banda desenhada do argentino Quino com a minha heroína preferida, Mafalda, onde a jovem contestatária dizia isso mesmo ("Felizmente, chegou a Primavera") - e ficava muito surpreendida ao ouvir um velhinho dizer para outro "Felizmente, cheguei à Primavera". Eu digo as duas coisas, porque as duas nos fazem sentir pletoricamente vivos.

Em qualquer caso, é excelente que, mais uma vez, a Primavera tenha chegado às nossas vidas, ao país, dando-nos forças para celebrar de novo o mistério da vida. E é magnífico que a chegada da Primavera coincida com o Dia Mundial da Poesia. Primavera e poesia casam muito bem.

Por isso, deixo aqui um lindissimo poema do nosso mais conhecido poeta extra-fronteiras, Fernando Pessoa, intitulado "Eros e Psique", celebrando os dois acontecimentos.

Conta a lenda que dormia

Uma Princesa encantada

A quem só despertaria

Um Infante, que viria

De além do muro da estrada

Ele tinha que, tentado,

Vencer o mal e o bem,

Antes que, já libertado,

Deixasse o caminho errado

Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,

Se espera, dormindo espera,

Sonha em morte a sua vida,

E orna-lhe a fronte esquecida,

Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,

Sem saber que intuito tem,

Rompe o caminho fadado,

Ele dela é ignorado,

Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino -

Ela dormindo encantada,

Ele buscando-a sem tino

Pelo processo divino

Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro

Tudo pela estrada fora,

E falso, ele vem seguro,

E vencendo estrada e muro,

Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,

À cabeça, em maresia,

Ergue a mão, e encontra hera,

E vê que ele mesmo era

A Princesa que dormia.



Fernando Pessoa

Nicolau Santos,

Director-Adjunto