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Economista poeta

Os meus inúmeros "problemas pessoais"

Está na moda entre banqueiros, empresários, gestores e respectivas "entourages": cada vez que um jornalista da área económica se atreve, em artigo público e assinado em baixo, a criticar alguma decisão empresarial ou algum acto de gestão, quebrando a unanimidade nacional sobre a excelência de uma venda ou o brilhantismo de um investimento, o assunto é logo catalogado com a frase de comiseração "ele tem ali um problema pessoal" com X ou Y, problema obviamente incompreensível para os criticados e seus séquitos.

 

Como é evidente, o que se pretende é desvalorizar a crítica, reduzindo-a ao "cliché" de que o jornalista não gosta deste ou daquele por razões meramente pessoais, quando não se passa para um terreno bem mais lamentável e se sugere – ou se diz mesmo, preto no branco –, que o profissional de informação escreve o que escreve porque está a soldo deste ou daquele contra aqueloutro. O que se pretende dizer é que a excelência dos criticados é tão grande que se torna impossível tomarem uma má decisão ou fazerem uma opção errada – e só uma mente retorcida pode ver areia onde nos garantem que existe ouro.

 

Ora nesta matéria, a imprensa económica está muito à vontade. Nos últimos anos não há revista, jornal diário ou suplemento económico que não elogie devidamente todos os bons actos praticados na esfera microeconómica. Mas quando se faz uma crítica ou uma investigação, o verniz estala e as reacções variam, desde a ameaça velada ao drástico corte da publicidade ou de assinaturas até à pressão sobre o director ou o proprietário do órgão de comunicação para que ponha o jornalista na ordem.

 

Nesse aspecto, o Caderno de Economia do EXPRESSO tem desenvolvido um intenso trabalho no sentido de mostrar o que de melhor se faz em Portugal. Do pagamento biométrico da Galp e da invenção da bilha de gás Pluma que já ganhou vários prémios internacionais à flor de sal de Portimão, da Via Verde da Brisa aos jogos para telemóveis da YDreams, dos trabalhos na área de biotecnologia da Alfama aos feltros para chapéu da Cepsa, dos equipamentos produzidos pela Efacec à louça sanitária da Valadares, da excelência dos nossos grupos de turismo (Pestana, Vila Galé, Amorim, Espírito Santo, Porto Bay) ao nosso sistema Multibanco, desenvolvido pela SIBS e que é um dos melhores a nível mundial, do sistema de bilhética trabalhado pela Mobycomp às soluções para gestão que tem vindo a ganhar cada vez mais compradores internacionais da Altitude, Primavera, OutSystems, WeDo, do grande sucesso da Critical como fornecedor da NASA e de grandes multinacionais até à afirmação da Aerosoles num sector tão difícil como o calçado, da grande capacidade inovadora da Salsa à presença da moda e dos estilistas portugueses, do novo "cluster" nacional de empresas que trabalha para a indústria espacial ao forte sector de empresas de moldes, da luta titânica mas vencedora da Bial para se afirmar no mercado mundial farmacêutico à genial reinvenção do papel higiénico da Renova, da conquista do mercado ibérico pelas vidreiras Barbosa e Almeida, Santos Barosa e Sotancro até a consolidação dos têxteis-lar portugueses nos Estados Unidos, passando pela Simoldes e Iberomoldes, que nos moldes de plásticos representam o estado da arte a nível mundial – não houve semana em que não divulgássemos algo de que o país se pode orgulhar.

 

Isso não só não nos inibe como nos dá maior autoridade moral para criticarmos aquilo que entendemos ir contra os interesses que melhor servem o país.

 

Dito isto, é pois ocasião do escriba desvendar os seus inúmeros "problemas pessoais". E o primeiro é em torno dos que sustentam que não há diferença entre centros de decisão e centros de excelência. Como é evidente, há. O centro de excelência é sempre muito mais frágil que o centro de decisão, por melhor que seja. Não será um bom exemplo, mas veja-se o que se passou com a fábrica da General Motors na Azambuja. Não é certamente pelo seu encerramento que a GM resolverá os gigantescos prejuízos de 10 mil milhões de dólares que acumulou. O Opel Combo ali produzido até era um razoável sucesso. E, no entanto, quando tocou a fechar, não houve centro de excelência que valesse. Mesmo no caso da Autoeuropa, só a determinação do seu ex-responsável em Portugal, Emílio Saenz, impediu que a multinacional alemã afastasse o encerramento. Também a recente fusão da Siemens com a Nokia traz preocupações acrescidas para a Siemens Portugal, uma empresa que está há um século no país. O centro de decisão desloca-se da Alemanha para a Finlândia. E o centro de excelência está com o coração nas mãos para saber se toda a operação não fica centrada em Espanha.

 

O segundo "problema pessoal" é contra os que defendem a tese de que não importa a titularidade do capital desde que a empresa funcione bem e crie riqueza e postos de trabalho. Como é evidente, isso é muito importante, mas não é tudo. Veja-se um caso que já relatei: o presidente de um dos maiores grupos alimentares portugueses, com uma reputação acima de toda a suspeita, pediu um encontro com o presidente de um banco espanhol em Portugal para renovar os financiamentos dadas as dificuldades em que o grupo se encontrava. O referido presidente nem sequer aceitou o encontro, provavelmente porque não tinha qualquer margem de manobra de decisão em relação a Espanha. E foi um banco português que ajudou o referido grupo a sair das dificuldades, estando agora de novo em fase de grande expansão no estrangeiro. Se assim não fosse, provavelmente hoje Portugal teria um grupo económico a menos.

 

Por outro lado, há gestores que defendem que o que é bom para a empresa que comandam é bom para o país. Nem sempre – e este é o meu terceiro "problema pessoal". Por exemplo, a saída da Galp da exploração e prospecção do petróleo em Angola foi defendida pelo presidente da empresa na altura como sendo o melhor para a petrolífera. Só que, como a evolução do preço do petróleo provou rapidamente, essa decisão seria não só um crime de lesa-Pátria, devido aos interesses estratégicos de Portugal, como um erro grave contra a empresa. E, no entanto, o gestor na altura criticado, foi logo a seguir aqui amplamente elogiado, quando exerceu funções de ministro, por três decisões que tomou: a manutenção de Fernando Pinto à frente da TAP; a introdução de portagens nas Scut; e a entrada em vigor da nova Lei das Rendas.

 

O quarto "problema pessoal" é com os que defendem que o sucesso individual é o sucesso do país. Não, não é. É excelente que um português seja nomeado presidente de um banco estrangeiro. Mas daí não advém nenhuma vantagem para o país – mas apenas para o próprio. Ainda por cima, se o referido presidente não conseguiu que o banco que liderava em Portugal perdesse autonomia e "back-office" para o centro de decisão em Espanha não se vê como se possa embandeirar em arco com este tipo de nomeações e branquear o que ficou para trás. Dirão: mas o referido banco financiou importantes operações em Portugal. E então? Tinham balanço para o fazer e é "business as usual". Além do que, convém lembrar, as acções das empresas em causa garantem os empréstimos. Adivinhem o que acontece se não forem pagos...

 

Há também os que assinam manifestos ou fazem declarações em favor da manutenção em mãos nacionais dos centros de decisão – mas depois vendem as suas empresas aos vizinhos do lado. O princípio aqui é que os envolvidos têm todo o direito de vender o que é seu. Mas não podem querer as mais-valias, fazer declarações politicamente correctas e ficar bem na fotografia. Seria de mais. É o meu quinto "problema pessoal".

Finalmente, sexto "problema pessoal", há os que pensam que o facto de existirem portugueses a representar empresas estrangeiras altera a natureza das coisas. Não, não altera e, por vezes, até obriga os referidos cidadãos a serem mais papistas que o Papa para provarem que estão a servir bem a instituição que lhes paga. O representante da Telefónica na PT, ou da Iberdrola, ou da Endesa, ou do Santander são portugueses. Mas estão lá para defender os interesses dos seus accionistas e não os do seu país – e devem ser vistos e revistos sob esse prisma. E entre os dois interesses, não tenham dúvidas sobre qual escolhem.

 

E pronto. Agora que me coloquei no divã e os leitores ficaram a conhecer os meus inúmeros "problemas pessoais", espero que este exercício sirva para tornar mais magnânimos os que têm de conviver com a crítica – e para tornar mais humilde o escriba.

 

Nicolau Santos,

Director-Adjunto