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Expresso

Economista poeta

O drama de Herman

Durante as décadas de 80 e 90, o único humor inteligente que havia neste país tinha a autoria de Herman José. Os Camilos desta vida eram certamente esforçados, mas bastava ouvi-los para perceber que a comparação era entre mestres-de-obras e um Picasso. Para além de personagens que ficaram para sempre no nosso imaginário, como o Diácono Remédios, o operador de câmara que censurava cenas mais ousadas, a Maximiana e muitos outros, são inesquecíveis programas como 'O Tal Canal', 'Humor de Perdição', 'Pensão Estrelinha', 'Herman Enciclopédia', etc.

Porém, à força da sua esmagadora superioridade no domínio do humor nacional, Herman enveredou pelo "talk-show" 'Herman SIC' e, dentro deste, pela piada fácil e rebaixoleira. Em vez de apelar à nossa inteligência, Herman passou a apelar aos nossos instintos. E o resultado ficou expresso nas audiências, que pouco a pouco foram perdendo espectadores – e sobretudo Herman foi perdendo aqueles que sempre apreciaram nele a capacidade de utilizar o humor para criticar e caricaturar.

Um dia, como todos os dias desta vida, começou a formar-se uma pequena onda, que se transformou, para Herman, num tsunami: o Gato Fedorento saiu da SIC Radical e de um programa de culto e cresceu, cresceu, cresceu tanto que no domingo passado, dia do primeiro confronto a sério, o 'Diz Que É Uma Espécie de Magazine' foi o segundo programa mais visto do dia, com 34,7% de share, enquanto a 'Hora H' não entrava sequer na tabela dos quinze mais vistos e ficava-se por 23,2% de share, mesmo assim um resultado honroso.

Herman é um cavalheiro e já disse que aprecia os Gato Fedorento. Mas também se percebe que está a sofrer por sentir que o público que gosta de humor inteligente encontrou uma alternativa para ele. Herman é o Figo, os Gato o Cristiano Ronaldo. Mas a lei da vida no futebol não se aplica no humor. Herman sabe e pode fazer melhor. Vê-se que está a lutar por isso e que não se dá por vencido. E todos nós, que adorámos muito do que Herman fez e que agora nos deliciamos com o Gato, só teremos a ganhar se ele voltar à fórmula que durante anos lhe garantiu indiscutivelmente o título do melhor humorista português de sempre.

Nicolau Santos,

Director-Adjunto