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Expresso

Economista poeta

Luís Ribeiro

Meu caro Luís, a Primavera está quase a chegar e sei que não vais cá estar para nos reunires a todos à volta de um jogo de futebol no campo de Direito, em Monsanto, quando chegarem esses domingos cheios de sol e com juvenis cheiros campestres, a fazeres comigo uma autêntica defesa de betão, pela qual muitas vezes (mas não todas!) passam por nós como Obikwelus os jovens avançados da equipa adversária.

Conheci-te como jornalista da área económica, quando já eras uma referência em "O Jornal" e, depois, na RTP. Depois deixaste-te de jornais e iniciaste uma brilhante e vertiginosa carreira de gestor, primeiro na Centrel, a convite de Jorge Rocha de Matos, e que te levou depois a ser fundador e vice-presidente da Telecel, presidente do "Público" e da APDC, administrador-executivo da TMN e PT Multimedia, CEO da Telepac e da Lusomundo, administrador-executivo da PTII, professor convidado do ISEG, eu sei lá!

Mas verdadeiramente até podias não ter tido tanto sucesso em tudo o que abraçavas com entusiasmo, porque onde tu eras verdadeiramente brilhante era na relação amiga, fraterna, calorosa, humana com que distinguias todos os que contigo se cruzavam. Lembro-me no "Público", para onde me convidaste como director, das angústias que levavas para casa face aos enormes problemas que a empresa enfrentava e à necessidade de que se fossem alguns anéis para salvar os dedos.

Lembro-me, depois, da conversa que tivemos a propósito do cancro que te surgiu na próstata e das lágrimas que te surgiram nos olhos, não a propósito da doença, mas de uma dor mais funda que ficará para sempre contigo e comigo. Lembro-me do entusiasmo e da esperança em todas as vezes que te encontrei depois, apesar de focos da doença se manifestarem noutros pontos do teu corpo. E lembro-me do abraço forte e emocionado da primeira vez que te visitei no Hospital da Cuf das Descobertas, ou da enorme dignidade que demonstraste quando te vi pela última vez no fim da tarde de 24 de Dezembro.

Meu caro Luís, a Primavera está a chegar e tu não vais organizar um jogo de futebol para reunir todos os teus amigos. Mas podes ter a certeza que, todos os dias, em qualquer lugar, um dos de nós se lembrará de ti e do teu exemplo de humanidade, de amizade, de lealdade, de fraternidade com que nos brindaste a todos e a cada um que teve o privilégio de te conhecer e de conviver contigo.

Nicolau Santos

Director-Adjunto