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Henrique Cayatte e o novo "Público"

A mudança gráfica de qualquer jornal é quase sempre recebida com pouco entusiasmo pelos leitores fiéis que, habituados a uma certa organização e grafismo, não gostam de alterações que lhes baralham os hábitos. Na maior parte, contudo, acontece-lhes depois o que Fernando Pessoa disse, em campanha publicitária para a Coca-Cola, que se iria passar com os portugueses quando a bebida americana se preparava para entrar no mercado nacional: "Primeiro, estranha-se. Depois, entranha-se".

 

Fundado em 1990, o "Público" sofreu esta semana uma radical mudança gráfica. Se essa mudança vai ou não num sentido mais popular, se o jornal está mais confuso e menos organizado, logo mais difícil de ler, serão os leitores e o mercado a julgar. Mas não é disso que quero falar, mas sim do anterior modelo, que sofreu alguns retoques ao longo da sua vida, mas sem nunca perder a identidade gráfica, que fazia do "Público" o mais bonito jornal diário português.

 

Ora esse modelo, convém lembrá-lo nesta altura, foi desenhado pelo que considero ser o melhor e mais original "designer" português, Henrique Cayatte - que, para além do "Público", tem uma vasta obra em muitos e diversos sectores. Recentemente, colaborou com o "Expresso" desenhando o grafismo do D. Quixote, que publicámos em fascículos, com desenhos de Júlio Pomar, tornando-se igualmente uma peça de arte lindissima.

 

Ao longo de quase 20 anos, o "Público", repito-o, foi, do ponto de vista gráfico, o mais elegante e bonito jornal diário de Portugal. Se jornal tivesse sexo, o "Público" seria uma lindissima mulher, com um enorme toque de classe. No momento em que o "Público" decide deixar cair o modelo gráfico que tinha desde a sua fundação, não ficaria bem com a minha consciência se não deixasse aqui o meu testemunho público de apreço e admiração pelas qualidades profissionais e humanas de Henrique Cayatte. Agradeço-lhe não só o jornal que nos deu, mas também o facto de ter provado que, em matéria de "designers" gráficos, não precisamos de andar á procura de soluções pelo mundo: temos em Portugal do melhor que há no planeta.

 



Nicolau Santos,

Director-Adjunto