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Expresso

Economista poeta

Explicação possível de uma "gaffe"

Oposição e "opinion makers" têm-se entretido a zurzir o ministro da Economia, a propósito da sua infeliz declaração na China, onde terá arrolado entre as vantagens para os descendentes do Império do Meio investirem em Portugal o facto de, por cá, os salários serem mais baixos do que a média da União Europeia.

Não é mentira, como toda a gente sabe, mas não é totalmente verdade, como também toda a gente sabe. A nível de quadros médios e superiores, bem como de administradores-executivos de alguns bancos portugueses, ganha-se tão bem ou melhor que média europeia. A questão, contudo, não é essa, mas saber porque se lembrou Manuel Pinho de acenar aos chineses, acusados muito justamente de praticarem um enorme "dumping" social nos produtos que exportam para todo o mundo, com os nossos baixos salários para os levar a investir nestes 92 mil quilómetros quadrados em que vivem os descendentes de Viriato e Sertório.

E a explicação bem pode ser a seguinte. Esta foi a primeira viagem ao estrangeiro do primeiro-ministro sob a égide da API (Agência Portuguesa para o Investimento), que está à beira de ser fusionada com o ICEP, para dar origem à APICEP. Até agora, era sempre o ICEP que preparava a mensagem económica destas viagens. E a lógica do ICEP é a de mostrar no estrangeiro a imagem de um Portugal moderno, exportador de tecnologia média, capaz de contribuir para o desenvolvimento de outros países.

E tudo isto fazia sentido já que Portugal exporta anualmente 50 mil milhões de euros de bens e serviços (34 mil milhões são bens), enquanto o investimento estrangeiro em Portugal ronda os 2.000 milhões de euros por ano. Por isso, a lógica deveria ser apostar fortemente na capacidade exportadora do país, decisiva para um crescimento são e equilibrado de Portugal e numa altura em que grandes mercados internacionais se abrem ao comércio, como a China e a Índia (mas também Angola), enquanto a captação de investimento estrangeiro será bastante mais difícil. Mas a lógica da API é a de mostrar as facilidades e vantagens dos investidores estrangeiros apostarem em Portugal.

Na China, o ministro da Economia seguiu, no seu discurso, a lógica de Basílio Horta à frente da API. Foi um triplo erro: primeiro, porque a mensagem dos salários baixos é perfeitamente indiferente para os investidores chineses; segundo, porque não precisam de Portugal como porta de entrada para nada, nem na Europa, nem no Brasil, nem em Angola, nem em toda a África; terceiro, porque a referida mensagem serviu apenas para excitar os espíritos indígenas e levá-los a zurzir sem piedade o ministro da Economia, já habituado, aliás, a estes exercícios. E o que se ganhou com isto? Nada. O ministro continua a ser apontado como um dos mais remodeláveis do Governo. A China provavelmente não colocará em Portugal um único euro de investimento estruturante - mantendo-se o seu investimento ao nível dos restaurantes e lojas chinesas. E o Governo português foi à China passar uma mensagem completamente errada.

É o que dá fazer fusões (entre API e ICEP) sem sentido e, ainda por cima, colocar a API como o líder desta fusão. Mas aí a responsabilidade é de Manuel Pinho. Ou seja, o ministro plantou ventos. Agora, está a colher tempestades.

Nicolau Santos,

Director-Adjunto