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Expresso

Economista poeta

A vida de dois jornais

Os dois mais importantes jornais económicos do país, o Diário Económico e o Semanário Económico, vão voltar a mudar de mãos. Depois da Recoletos, são agora os italianos do Corriere Della Sera que, ao comprar o grupo espanhol, passam a controlar os dois títulos económicos portugueses. Em 1987 fui um dos oito jornalistas co-fundadores do Semanário Económico e, dois anos depois, do Diário Económico, jornais de que fui posteriormente director. Até 1992, data em que abandonei os jornais, vendendo a minha quota de 10%, foi possível fazer um acordo com o grupo francês Eurexpansion, controlado por Jean-Louis Servan-Schreiber, que nos permitiu lançar uma revista fiscal (Fisco), uma revista económica (Expansão), além de newsletters e outras publicações destinadas a nichos de mercado.

 

Posteriormente, Jaime Antunes, o maior sócio e principal impulsionador do projecto inicial e a Eurexpansion venderam a Económica a Miguel Pais do Amaral, que em 1994 me convidou para voltar ao grupo como director do Diário Económico, transformando-o de tablóide em "broadsheat". Foi um dos períodos mais gratificantes da minha vida profissional - e o certo é que o Diário Económico, que como tablóide vendia menos de 2.000 exemplares por edição, deu um grande salto em frente, passando para cerca de 5.000 exemplares, fasquia que Sérgio Figueiredo, o director que me sucedeu, elevou para patamares acima dos 10.000 exemplares.

Mais tarde, Pais do Amaral optou por vender as duas publicações ao grupo espanhol Recoletos e a partir daí deixei de me identificar com a linha editorial do jornal, que teve uma primeira deriva para a área política, recentrando-se depois outra vez no noticiário económico, mas veiculando demasiado os pontos de vista que interessam ao nossos vizinhos (quer editorialmente, quer através dos seminários e conferências que realiza quase semanalmente) e tornando-se excessivamente oficioso e bem comportadinho para o meu gosto. Resumindo, o Diário Económico, com a saída do Sérgio, perdeu chispa, perdeu alma e caiu na cartilha neo-liberal mal assimilada, com muita tradução do Financial Times e pouca reflexão consistente internamente. 

 

Agora são os italianos que compram os dois jornais. E se quanto aos espanhóis da Recoletos se percebia muito bem a estratégia de penetrarem no mercado português e quais os objectivos, os italianos, como é evidente, estão muito mais interessados no mercado espanhol no que no nosso. No novo quadro, o que vale ao Diário Económico e ao Semanário Económico é que continuam a ser jornais rentáveis e bem geridos. Mas duvido que isso chegue para lhes assegurar o futuro sob o chapéu do Corriere Della Sera.

Nicolau Santos

Director-Adjunto