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Expresso

Economista poeta

A poema-utopia de Manuel Bandeira

A poesia pode ser uma explicação do mundo. Do amor. Dos afectos. Dos trajectos. Ou servir para denunciar. Ou para nos fazer sonhar.

 

No final de um ano qualquer não muito distante, eu estava no Morro de São Paulo, uma ilha que fica em frente a S. Salvador da Bahia. Fui beber um suco tropical com a família a um barzinho delicioso, situado numa espécie de promontório onde atracam os barcos que trazem os turistas. Trouxeram a lista. E na lista vinha um extraordinário poema, onde podemos ler todas as utopias - as dos dois últimos séculos, mas provavelmente (com adaptações) as que qualquer ser humano deseja para si também no séc. XXI, quando se sente cercado por inúmeras grades invisíveis mas efectivas.

 

O poema é de Manuel Bandeira - que chamou Pasárgada a essa terra de utopia.

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tiva

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau de sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mais triste de não ter jeito

Quando de noite me der

- Lá sou amigo do rei
–

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira (Recife,Brasil, 1886-1968)

Nicolau Santos,

Director-Adjunto