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Expresso

Volta ao Mundo a rasgar oceanos

Frota prepara-se para os Mares do Sul

A frota está reunida e a preparar os detalhes para mais uma perna

Brian Hancock

Ana Lima em Cape Town

A frota da regata "Portimão Global Ocean Race", uma competição que saiu da cidade de Portimão a 12 de Setembro e que se propõe dar a Volta ao Mundo em veleiros com tripulações duplas e solo, prepara-se agora para uma nova largada ao largo de Cape Town. Esta viagem de circum-navegação enfrenta a partir do próximo sábado uma das etapas mais difíceis do percurso - a passagem pelos mares do Sul até Wellington. Estão previstos 35 dias de viagem num total de 7500 milhas marítimas. 

Todos os participantes sabem que vão ter que enfrentar ventos muito fortes e gelados bem como ondas de grande porte. Também os icebergs são uma ameaça constante que obrigam a uma permanente vigia dia e noite.  

Os concorrentes têm obrigatoriamente que passar por duas "portas", pontos obrigatórios de controlo, que não permitem que os veleiros rumem mais a Sul do que é razoável em termos de segurança; uma latitude 35º Sul 007 Este, 46,3º 070 Este na primeira porta e 45ºSul, 100 Este, 45ª Sul, 110 Este na porta 2. A explicação desta imposição é simples, esta é a área de segurança australiana (rescue) para helicópteros e barcos.  

De acordo com o director da regata Josh Hall "É sempre difícil partir de qualquer porto especialmente de Cape Town, todos sabem que é uma viagem muito perigosa, vão estar muito longe de terra sem qualquer apoio a não ser o rádio. Para alguns destes velejadores é a primeira vez que competem nos Mares do Sul e por isso ainda mais perigoso fica. Os ventos são muito fortes, gelados e o tempo vai estar muito mau. Por outro lado a primeira perna da regata que ligou a bonita cidade de Portimão a Cape Town permitiu-lhes conhecer melhor o barco e todo o material de bordo. Alguns dos concorrentes estão habituados a velejar no Atlântico que não tem nada a ver com os Mares do Sul. Talvez os dois barcos solitários sejam os mais experientes. No caso de Niko o holandês este era o seu sonho, fazer uma volta ao mundo em solitário. Ele é um verdadeiro homem do mar, experiente, o barco é o seu melhor amigo." Mais à frente Josh salienta a forma como foram recebidos no clube "O Royal Cape Yatch Club é fantástico, é um ícone dos clubes mundiais, por aqui passam as grandes regatas, todos quantos vão para os Mares do Sul fazem aqui uma paragem". Neste momento a organização faz um balanço muito positivo da regata que se cumpre de dois em dois anos razão porque já abriu inscrições para 2010 e conta já com um veleiro sul-africano. 

As pequenas embarcações estão amarradas aos pontões mesmo em frente à varanda do clube, que conta já com 101 anos de existência e que é ponto de encontro dos velejadores em competição e dos associados que, por conhecerem bem a dureza da próxima perna, não se cansam de fazer perguntas e observações situação que cria ao longo do dia uma enorme interacção. O restaurante do clube é gerido por uma família de portugueses, há muitos anos radicada em Cape Town o que à boa tradição lusa mantêm as mesas sempre fartas. 

Nas duas semanas de paragem em Cape Town os velejadores quase desmancharam os seus pequenos veleiros, tiraram os mastros, verificaram todos os pormenores do material utilizado, coseram velas e aproveitaram para fazer novos testes de velocidade e resistência. Apesar dos seus 25º de temperatura, as nuvens acumuladas em cima da "Table Mountain" anunciam diariamente ventos de 35/40 nós (cerca de 80Kms), algo parecido com os temporais que vão encontrar mais a Sul. 

Apesar de atarefados os dez velejadores ainda encontraram tempo para cumprir uma regata com uma escola de vela local dinamizada pelo Almirante Louw "Trabalhamos com os jovens mais desfavorecidos que têm vidas muito difíceis. Trazemo-los para o clube e damos-lhe formação na área náutica, aprendem a velejar, nalguns casos já têm feito regatas na Europa. São cerca de 150 jovens que desta forma viram reforçado o apoio que necessitam para as suas competições. Agora estamos a preparar um veleiro, só com tripulação nossa (6 atletas) que vão integrar a frota que liga a cidade do Cabo à Baia. Estamos muito entusiasmados, o veleiro chama-se Vaar Trekker I, o que significa "Os Primeiros". Vamos utilizar um barco histórico na África do Sul, fabricado em 1967 mas em muito bom estado para os cerca de 25 dias de viagem que conta com a presença de 45 concorrentes" explica o almirante com grande entusiasmo. 

O veleiro chileno "Desafio Cabo Hornos" cortou a linha de chegada na segunda posição. Felipe Cubillos e José Munoz foram discutindo ao longo do percurso a primeira posição com o Beluga Racer. "Foi uma longa travessia, uma experiência muito dura, de qualquer forma nada que se possa comparar aos Mares do Sul. Foi muito difícil passar o Equador, o mais complicado porque ou apanhávamos ventos muito fortes ou ficávamos encalmados. Rasgámos uma vela mas bordo tudo correu bem excepção feita à quantidade de comida que tivemos que racionar. Desta vez sou eu que vou ao supermercado" explicava José com alguma nostalgia no olhar. A explicação veio depois "Tenho muitas saudades da minha família, mas principalmente da minha filha"

Quanto à dureza da próxima perna Jose disse estar consciente das dificuldades. "Agora conhecemos muito bem o barco, o seu comportamento com os vários tipos de vento. Conseguimos resolver todas as adversidades a bordo e também decidimos ter mais peças suplentes"

Na terceira posição está o veleiro "Team Mowgli" que conta a bordo com a dupla Jeremy Salveesen /David Thomson. "Tudo correu muito melhor do que eu pensava. Imaginem que nadámos em pleno Oceano Atlântico, com água a 32º, foi incrível e claro que abrimos uma garrafa de champanhe na passagem do Equador. Foi um bom treino para o que nos espera a Sul. Tempo agressivo, frio, ondas gigantes vamos ver como nos comportamos", dizia Jeremy enquanto David acenava com a cabeça, numa postura de grande perplexidade.

 Em solitário e na segunda posição está o veleiro holandês "Hayai" de Nico Budel, o concorrente mais velho. "Este era o meu sonho, dar a volta ao mundo em solitário e começa a cumprir-se. Foi fantástico, apenas as últimas milhas do percurso foram muito longas, é que tive que rumar muito a Sul para conseguir vento. Quase que valia a pena ter rumado de imediato a Wellington. Não gosto de frio, vamos apanhar temperaturas muito baixas mas bons ventos. Não vamos poder usar a vela suplementar (Spi) e vai estar realmente muito frio nesta perna", e acrescentava: "Bom na Holanda também temos temperaturas muito baixas"

Esta manhã - Reunião de skippers

 No que diz respeito à chegada à cidade de Wellington na Nova Zelândia, foi explicado na reunião de skippers realizada de manhã, não vai ser tarefa fácil. Os veleiros vão cortar a linha de chegada fora do porto, uma vez que esse percurso tem pequenas ilhas de pedra, muito perigosas para a navegação e para alguém que conta já com muitos dias de mar e está desgastado. A largada, no entanto para Ilha Bela no Brasil será feita no porto atendendo à sua espectacularidade.  

A largada para os Mares do Sul está prevista para dia 13 de Dezembro pelas 11h00. Os pequenos veleiros, vão ser rebocados a partir das 8h00 da manhã para fora da baia estando já organizada uma enorme frota de velejadores do clube que vão acompanhar durante algumas milhas os velejadores, numa última despedida.

 Esta é a segunda de quatro paragens antes de regressarem a Portimão em Junho do próximo ano. As tripulações dos seis veleiros, classe Open 40, que compõem a frota da regata "Portimão Global Ocean Race", têm agora alguns dias para descansar, fazer os arranjos do material danificado e preparar a próxima etapa nos mares do Sul.



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