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Expresso

Na casa das máquinas

José Sócrates numa moldura

Pedro Xavier Mendonça

O regresso do antigo primeiro-ministro José Sócrates à televisão ajuda-nos a refletir sobre a forma como um político se torna presente na vida das pessoas não só mediante a sua governação como também através dos media. A experiência de Sócrates que cada um dos cidadãos possui resulta da ação que um político tem sobre os indivíduos apenas porque é político, o que lhe dá um certo poder sobre a sociedade, e da forma como é projetado pelos meios de comunicação de massas, pingando a sua imagem constantemente no espaço público e privado - sim, porque a sala-de-estar de uma casa onde se centra uma televisão não é propriamente um lugar íntimo na sua totalidade.

Para aqui interessa sobretudo o Sócrates que nos aparece através dos ecrãs, a que podemos chamar "Sócrates emoldurado", embora não seja antagónico ou independente do Sócrates físico. Ora é o antigo primeiro-ministro mediático que volta com mais exclusividade, afastado que foi o político de governo. Volta-nos a imagem, que na realidade nunca nos deixou, como fantasma. Qualquer um destes Sócrates é político. Mas aquele que é emoldurado tem uma capacidade singular: a de permanecer a agir nas consciências. Ainda que o outro também se fixe nas mentes dos cidadão e na vida real que ajudou a formar, o Sócrates emoldurado ocupa um lugar cénico que o torna omnipresente e ubíquo. É como a publicidade. Em certo sentido, o Sócrates mediático é publicidade, produto que se quer refazer numa inovação circular.

Esta circunstância mostra a ironia das tecnologias de informação e comunicação: se, por um lado, resguardam uma memória gigantesca, chegando a dispensar o cérebro humano; por outro, permitem a performatividade do esquecimento, da renovação total, mostrando que não basta guardar a informação para haver memória, é preciso também que exista humanidade enquanto capacidade de recordar, isto é, de voltar atrás, a algo específico, em relação ao qual existe um sentimento. É este que faz a relação da memória, do passado, com o estar aqui, o presente.

Se não houver esta disposição tão humana, seremos autómatos, tal qual as máquinas que nos guardam a memória mas não são capazes da indignação. Sócrates quer ser mais uma moldura lá em casa. A nossa televisão o permite. A nós resta sentir.

Pedro Xavier Mendonça, investigador académico em estudos sociais de tecnologia e de comunicação, procura com este espaço trazer reflexões das pesquisas sobre tecnologia e sociedade. Porque a tecnologia é uma realidade social e tem implicações humanas, pretende-se pensá-la a partir destas duas vertentes. O objetivo é estimular o pensamento sobre este fenómeno evitando os quadros mentais que o fecham no mundo da técnica. pedroxaviermendonca@gmail.com