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Falta de castigo

Nua e crua

José Alberto Quaresma (www.expresso.pt)

Temos pouca sensibilidade para nus e desvalidos. Segundo o Correio da Manhã, uma mulher de 27 anos, completamente nua, saiu para a rua em perseguição do jovem que tinha acabado de recusar relações sexuais com ela. E, como uma desgraça nunca vem só, a mulher desprotegida acabaria por ser detida pela PSP. Porque, sendo estrangeira, estava em situação ilegal no País.

O casal tinha vindo de Ourém para participar na festa da semana académica de Faro. Alojou-se num apartamento na Estrada da Senhora da Saúde. À partida, a opção do casal parecia ser acertada, pelo menos, em termos de prevenção de doenças. Sob a protecção da Senhora da Saúde, descuido não será um risco.

Na semana académica ninguém gosta de pisar o risco. A semana académica constitui sempre um conjunto de instantes de muito estudo e de pouco lazer. Se assim não fosse, não seria académica. Há quem diga que a semana só serve para estudar o lazer. Ou melhor, praticar lazer sem estudar, segundo os académicos mais seráficos.

Só que lazer rima sempre com prazer. Para mim isto não é líquido. Mas pode ser do líquido. É certo que a noite, em que ocorreram os factos com o casal, fora bastante regada. Ninguém corre risco de morrer desidratado em qualquer semana académica.

O jovem que veio de Ourém não agiu bem. Desde logo porque, estando em festas académicas, se permitiu recusar as festas da carente companheira. Depois porque, na Estrada da Senhora da Saúde, não deveria recear, no mínimo, doenças sexualmente transmissíveis. Deveria sujeitar-se ao castigo. Semana académica sem copos, sexo, drogas e rock & roll, para além de muito estudo, é tudo menos académica.

Mas, do mal, o menos. Temos a impressão, muitas vezes errónea, de que as semanas académicas pecam sempre por excessos. Este episódio demonstra o oposto. Também se peca por defeito.

Fala-se tão mal da ausência de espírito de iniciativa dos jovens. Esta mulher jovem soube perseguir objectivos, mesmo em condições desfavoráveis, nua, descalça, vai para a fonte, que foge dela.

O rapaz, não agindo bem, soube ser assertivo. Muito veloz a fugir e, contrariamente à jovem, vestido e equipado. E com a mesma convicção de José Régio, no seu Cântigo Negro: "Não sei por onde vou / Não sei para onde vou / Sei que não vou por aí"!