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Expresso

O Vento nas Velas

Tanegashima revisitada

Em Tanegashima celebra-se Portugal; quando em 1543 a oferta da espingarda foi recebida com toda a curiosidade, concentração e assimilação rápida, de que os japoneses são capazes.

Cristina Castel-Branco

Em 1993 uma "embaixada", organizada pelo Centro Nacional de Cultura, onde participaram Alberto Vaz da Silva, Graça Morais e Jorge Borges de Macedo partiu para o Japão para festejar os 450 anos do encontro das duas culturas. O registo da experiência de viajar pelas terras onde os portugueses viveram com os japoneses no sec. XVI é feito de emoções e história. Por um lado, o efeito de surpresa e fascínio do lugar em si, da paisagem e da população a celebrar Portugal em sitios tão remotos: "As crianças que, à chegada, agitavam bandeirinhas olhavam atentamente o folheto em forma de leque que lhes dávamos; reuniram-se, envolveram-nos, dissiparam-se como numa encenação de kabuki - teatro clássico dramático cantado e dançado. Por outro lado, o conhecimento da história desse encontro quinhentista, a partilha de culturas e a descrição dos elementos que ali o confirmam: "O museu histórico e etnográfico alberga várias curiosidades, um notável teatrinho mecânico de marionettes que reconstitui a chegada dos portugueses à ilha e a apresentação da espingarda ao daimio (sem omitir o imediato esforço dos ferreiros locais, de vestes brancas como os sacerdotes, para a reproduzir); uma extensa colecção de armas descendentes da primeira."

A acompanhar o texto de Alberto Vaz da Silva, os desenhos de Graça Morais são como sobreposições de camadas de tempo entre hoje e o Séc. XVI e rematam bem o efeito emoção/história: "O nosso conceito de exotismo apura-se ao depararmos numa vitrine com o traje de gala de um embaixador ocidental ao lado de um capote alentejano. Mas o momento culminante da visita, não sei se era a hora do galo, do rato, ou da raposa, foi aquele em que uma mulher portuguesa calçou luvas brancas para empunhar, com olhar intrépido, a mesma arma que quatrocentos e cinquenta anos antes um seu compatriota revelara ao Japão. Existe uma fotografia em que o anfitrião que assiste à cena ri com a satisfação que só os japoneses sabem exprimir com um sublinhar de sobrancelha espessa. Recordo César Torres, em 1551: em todo o descoberto não há homens da sua maneira: têm mui linda coversação que parece que todos eles se criaram em paços de grandes senhores."

A paisagem da ilha de Kyushu é nos revelada em pinceladas lusas que servem só de suporte a um entranhar da mágica cultura japonesa, em que tudo é símbolo, tudo encerra significado para além da sua própria forma: "A estrada junto ao mar trata as ilhas da costa por irmãs. Quase podemos tocá-las perguntar-lhes se viajam, como asseveravam os antigos imortais, no dorso de tartarugas gigantes, se nelas respiram grandes lapas soalheiras que sonham voos de gaivotas [...] Sem intimidade com o mar, paralelos ao mar, bordado de ilhas, os olhos da nossa guia são ilhas também, invadidos pela maré cheia dessas águas sulfurosas e vulcânicas que conferem a tudo um denso Oriente imprescritível."





Coordenação



Cristina Castel-Branco e João Paulo Oliveira e Costa



Assistência Tecnica



Inês Pinto Coelho e Margarida Paes



Colaboradores



Alexandra Curvelo, Ana Fernandes Pinto, Leonilda Alfarrobinha, Pedro Canavarro, Ayano Shinzato D. Pereira, Alberto Vaz da Silva