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O Vento nas Velas

O jardim japonês na Quinta das Lágrimas

Pormenor do jardim japonês na Quinta das Lágrimas

A primeira ideia que surge para um jardim japonês é o sossego. Tudo deverá concorrer para a paz, através da contemplação da beleza. Depois são as pedras a "quem" os japoneses sabem dar vida.

Cristina Castel-Branco

Sobre este assunto das pedras, há termos próprios porque há técnicas milenares para cada tipo de disposição da pedra - ishizumi. Muitos livros se escreveram sobre a disposição, seus significados e formas, e conhece-se toda a história da sua evolução como entes fundamentais do jardim Zen.

Dispus as pedras do jardim japonês da Quinta das Lágrimas como palavras numa poesia, com sentido oculto e tendo em vista o efeito da composição em perspectiva num espaço limitado (120m2) por duas dimensões. A terceira dimensão é infinita e vai até ao céu, tal como o simbolismo que de cada pedra, de cada conjunto se desprende, flutuando no espaço, no universo e no tempo.

No Japão, se o jardim for só para meditação não se entra para dentro dele, olha-se a partir da varanda, alpendre sobreposto ao jardim que limita os lados dos pavilhões de madeira que o rematam. Ao percorrer estes alpendres virados para o jardim, as pedras parecem mover-se, os montículos de musgo parecem mudar de sítio, os bambus ao fundo deslizam como códigos de barras em movimento, a água aparece e desaparece conforme o ângulo do alpendre.

Aqui, na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, limitámo-nos a um só alpendre. Mas temos mais dois ângulos de vista do jardim a partir dos corredores dos quartos e um mesmo de dentro de um quarto. Os efeitos de luz através da vegetação foram estudados e o jardim é sempre diferente de cada vez que se visita. Se chover, podemos continuar a apreciar o jardim, resguardados sob o alpendre, as pedras ficam molhadas, o musgo agradece, as pingas de água vêm juntar-se à nostalgia que sentimos de um passado muito longínquo.

Este jardim foi desenhado para nele se tomar chá, não em grupo, mas a dois. No ano de 1191 o Monge Budista Eisai trouxe da China para o Japão as sementes de chá e dedicou a sua vida a espalhar pelo Japão os princípios da seita Zen Budista em simultâneo com o chá , afirmando que "Zen e chá têm o mesmo gosto".

A vegetação é escassa: uma cerejeira, dois aceres e cinco azaleas , mas no ângulo de vista do alpendre vê-se para lá das paredes, a parte de cima do bambusal, a copa esguia das centenárias sequóias, o ficus e a mata ao fundo. Esta técnica de "pedir emprestada a vista" tem uma designação, shakkei; e aqui foi só olhar para além do telhado do pátio que pré-existia e perceber que a parte maior e mais difícil de conseguir obter no jardim japonês já ali existia desde o século XIX.

Foram inspiradoras para o traço e a construção deste espaço as histórias escritas pelos jesuítas que no Japão implantaram a fé cristã. A eles presto uma homenagem com este jardim que tanta alegria me deu desenhar, construir e plantar.

Por isso, gostava que este jardim fosse vivido como um local de paragem e de elevação da alma através do sossego e um hino aos encontros e re-encontros entre as civilizações do Oriente e do Ocidente.