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O Vento nas Velas

O Japão em São Paulo

No Bairro da Liberdade em São Paulo, Brasil, foi-se instalando a comunidade emigrante japonesa desde 1908, enraizou-se e conta hoje com cerca de 2,5 milhões nipo-brasileiros.

Cristina Castel-Branco

Que grande surpresa!!! Vi-me num supermercado de produtos só japoneses, meninas das caixas todas japoneses, uma fila certinha de japoneses para pagar, e ouve-se em bom português - "Tem cartão Matusai de descontos?" Estava no Bairro da Liberdade em São Paulo, onde se foi instalando a comunidade emigrante japonesa que veio reforçar a expansão económica do Brasil como mão-de-obra para as grandes fazendas de café, para os caminhos de ferro, etc.

É heroica a história desta emigração organizada, que começou com 764 vistos para trabalhadores embarcados no Kasato-Maru e chegados em condições desumanas e é comemorada hoje com grande respeito pela comunidade nipo-brasileira que se enraizou no Brasil. Das histórias de esforço e dificuldade de integração destacam-se as da chegada, em que a falta de higiene nos bairros de trabalhadores criou mais desalento do que as duríssimas condições de trabalho de apanha do café. Não havia nem banheiras nem retretes!!!

A crise de 1929 e a II Guerra Mundial pioraram as condições de emigração mas a qualidade dos trabalhadores japoneses, a sua persistência até vingarem na sociedade brasileira, ficaram bem expressas, surgindo filmes, documentários, fotografia e pintura que registam a história. A capacidade de manterem vivas as suas tradições é ponto forte dos japoneses. Por exemplo, encontrei anunciadas no jornal Bunkyonews (www.bunkyo.org.br); "Homenagem à longevidade e respeito aos pioneiros", com a fotografia actual de 30 pessoas acima dos cem anos que vieram no barco inicial. É a veneração pelas coisas antigas à qual se junta o gosto pelas artes clássicas japonesas: são oferecidos cursos de Ikebana para jovens que venham a manter viva no Brasil a tradição dos arranjos florais, das artes marciais, da caligrafia.

Encontrei ainda no coração do parque de Ibirapuera, desenhado por Burle Marx com notáveis pavilhões e estruturas de Oscar Niemeyer, um pavilhão japonês rodeado por um jardim. Tudo certo: as plantas, as pedras, o lago, as carpas...mas faltava a manutenção e só isso fazia perder toda a estética japonesa, passando a ser um espaço da tropicalidade por vezes pouco cuidada de jardins brasileiros.

A diferença destas duas culturas separadas por 12 fusos horarios é máxima e é simétrica: naquilo em que os japoneses são fortes, os brasileiros são fracos e vice versa. Admito que o sucesso seja mais fruto de uma complementaridade de extremos e de uma conjuntura mundial difícil que já não permitia voltar para trás, do que de uma adaptação ao meio brasileiro. Relembrei, claro, a notável adaptação dos portugueses do século XVI ao Japão e as nossas 200 palavras na língua japonesa...agora úteis aos nipo-brasileiros.





Coordenação



Cristina Castel-Branco e João Paulo Oliveira e Costa



Assistência Tecnica



Inês Pinto Coelho e Margarida Paes



Colaboradores



Alexandra Curvelo, Ana Fernandes Pinto, Leonilda Alfarrobinha, Pedro Canavarro, Ayano Shinzato D. Pereira